O anunciado adeus do deputado Jean Wyllys

Em meio ao alarido geral, aparece agora Jean Wyllys dizendo que vai renunciar ao novo mandato de deputado federal. No anúncio feito em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, ele afirma que está desistindo de seu terceiro mandato e sairá do país. O político do Psol disse que tomou a decisão por causa de ameaças, porém não foi claro sobre o real conteúdo dessas ameaças. Não trouxe nenhuma denúncia objetiva, alegando apenas que o clima criado com a eleição de Jair Bolsonaro afeta sua segurança pessoal.

Com a notícia, o deputado conseguiu ganhar espaço na imprensa, mas se ele tinha esperança de criar uma comoção política, parece que o artifício não deu certo. Não houve nada parecido a um “Fica, Jean Wyllys!”. Inexiste qualquer movimentação pedindo que ele reconsidere a decisão. Ao contrário, as pessoas vêm prestando sua solidariedade e dando um tchau ao renunciante.

Não me espantaria se isso for mais uma de suas pataquadas. Jean Wyllys é um fazedor de cenas, desde o tempo em que foi vitorioso numa edição desse programa lamentável que é o BBB, da Rede Globo. Na política ele continuou atuando de forma farsesca. Ele saiu do programa, mas o BBB não saiu dele. Na política fez fama infelizmente se aproveitando de temas essenciais para a democracia brasileira e prejudicando a luta pelos direitos civis. A verdade é que sua carreira política não deu certo. Ele não conquistou representatividade entre as minorias, no eleitorado feminino e no meio cultural de esquerda, entre os quais supostamente ele teria grande força política.

Sua votação para deputado federal no Rio de Janeiro foi muito pequena, demonstrando que faltou-lhe capacidade de fazer da sua enorme projeção nacional um reforço importante em pautas que costumam ficar de fora da política tradicional. Ele teve apenas 24.295 votos e não teria sido eleito se não fosse o alto quociente eleitoral do Psol, garantido por Marcelo Freixo, com seus 342.491 votos que deu-lhe o segundo lugar no estado, pouca coisa abaixo do deputado Hélio Negão, apadrinhado por Jair Bolsonaro. E em matéria de violência, Freixo tem mais do que se queixar do que Wyllys. Desde que presidiu a CPI das Milícias em 2008, ele vem sendo obrigado a viver protegido por um forte esquema de segurança.

No anúncio da renúncia política, Jean Wyllys voltou a acusar Jair Bolsonaro e seus filhos, citando inclusive as suspeitas de relações da família Bolsonaro com chefes de milícias paramilitares no Rio. “Me apavora saber que o filho do presidente contratou no seu gabinete a esposa e a mãe do sicário”, ele disse. Ocorre que esta rivalidade não é unilateral. Não foi alimentada apenas por Bolsonaro e nem era só ele que lucrava com os insultos mútuos. Da sua primeira eleição — com apenas 13.018 votos, quando foi eleito da mesma forma pelo quociente do partido — Wyllys saltou para 144.770 em 2014.

O problema para ele foi que seu eleitorado minguou nos últimos quatro anos, quando a estratégia do confronto acabou favorecendo Bolsonaro e seus filhos. Com inabilidade política e total falta de bom senso, Wyllys foi um dos parlamentares otários da esquerda que serviram de alavanca para o extraordinário crescimento da direita no país. Não se pode deixar de ser solidário com ninguém quanto à ameaças de violência, mas para o bem dos direitos individuais e a qualidade da democracia, Jean Wyllys já vai tarde da política.

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 50 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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