O desespero da Rede Globo

Meu filho mais velho, Eli, 40 anos, casado, pai de duas meninas gêmeas de dois anos de idade, morador de Curitiba, já passa mais de um ano sem nenhum televisor em casa… Eu soube que isso acontecia há pouco tempo, quando ele veio me visitar em Vinhedo (SP) com a família – as encantadoras Isadora e Manuela e a esposa, a professora e diretora de teatro, Maira Lour…

Não havia como não descobrir: minha casa ainda tem nada menos de três televisores, inclusive TV por assinatura, mas em cinco dias que aqui estiveram nenhum deles viu sequer um décimo do tempo de televisão que vemos aqui em Vinhedo… Não é impressionante ?

Eli é diretor de fotografia em vídeos publicitários e a cidade onde mora, Curitiba, é uma praça bastante forte na produção de vídeos, opção a quem procura preço e qualidade…

MAIS UM SINAL

Eli tem observado que rarearam as encomendas de vídeos publicitários mais longos e sofisticados para exibição na TV aberta: “É neles que a gente ganha mais dinheiro!”, queixa-se…

Além de Eli, tenho mais três filhos, todos com mais de 30 anos e nenhum com aquela dependência mínima de TV – se a TV desaparecesse da vida dos três, não faria falta…

Tenho um sinal ainda mais contundente dessa nova ordem que parece se instalar no mercado de TV: ainda há pouco tempo, estive na fazenda da Família Mesquita, aqui perto de casa…havia uma comemoração na cancha de bocha (Rodrigo Mesquita, meu amigo, é apaixonado por bocha) e ali estiveram reunidos para um churrasco perto de 15 adolescentes – garotos e garotas na faixa de 15 a 17 anos…

Anoiteceu e então descemos para o casarão onde um amigo, violonista e cantor, ofereceria uma canja…estranhei a ausência da garotada e, à procura dela, abri a porta de um quarto: estavam todos lá, em silêncio, absortos em laptopes e celulares…

MAIS QUE INDÍCIOS

Esse encadeamento de fatos e cenas me ofereceu um retrato preciso e completo das transformações em curso no mundo das comunicações…os primeiros a entrar em disrupção foram os impressos…

Esse filme que só agora começamos a ver em relação à TV já vi em relação aos impressos…fui dos poucos jornalistas, talvez por mero atavismo, a escrever sobre a força milenar dos jornais e a considerar que os impressos teriam uma sobrevida tão longa quanto foi longo o hábito de consumir informação em papel…Capitulei há cerca de um ano atrás ao ser informado sobre a agonia da Gazeta do Povo, o principal jornal de Curitiba…

Eu morei por longos 16 anos em Curitiba e já havia presenciado, pegado na mão e apalpando, uma Gazeta com 500 páginas – eu disse, qui-nhen-tas páginas !

TODOS EM CRISE

Hoje, no Brasil, todos os jornais que sobreviveram até aqui – eu disse, todos – estão em crise…Pagar as contas do mês é uma luta renhida !

Alguns se salvarão do abismo se conseguirem implantar bons serviços de difusão de informações pela via eletrônica e souberem aproveitar a força de marcas poderosas, como foi a do Estado de São Paulo…Que se contentem neste começo com um patamar de receitas bem inferior…

É chegada a hora da televisão, a começar pela TV aberta…as receitas já encolhem e, cada vez mais, os anunciantes descobrem a incrível flexibilidade da internet, com receitas de publicidade em franca ascensão!

Faz já mais de um ano que o mercado financeiro identifica manobras da Globo para mudar a lei que fixa em apenas 30% a participação de capital estrangeiro em empresas de TV no Brasil…há informações de que a Globo já tem ofertas de grupos internacionais, mas o limite legal impede a negociação…

O momento de vender é agora…a disrupção será rápida…e o governo Temer resiste à mudança e talvez não haja tempo… A Globo já tentou derrubá-lo mas não conseguiu… É nesse contexto que eu coloco o caso Wiliam Waack, que na minha opinião pouca coisa tem a ver com racismo… o apresentador foi, digamos, uma primeira cabeça entregue de bandeja pela emissora a quem a pediu… outras cabeças, por certo, rolarão! Dirceu Pio

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 50 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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