Basta a seqüência de créditos iniciais para uma primeira constatação a partir de O Mundo: Jia Zhang-ke está buscando novas formas, materiais, ambições – nova estatura. Acostumado a rodar na clandestinidade, utilizando suportes baratos e leves – a exemplo da mini-DV com que Yu Lik-wai (seu diretor de fotografia e braço direito) produziu uma textura única e fez dois grandes ensaios sobre o espaço da China contemporânea em Prazeres Desconhecidos –, Jia vem agora com um filme feito em digital de alta definição e preenchendo a tela de lado a lado, num formato 1:2.35 suntuoso e exuberante – muitas vezes até opulente.
Enquanto os nomes que compõem a ficha técnica vão aparecendo aos poucos, sempre ocupando o mínimo de espaço possível na imagem, mas sempre participando da sua plástica, o filme já propõe a flutuação delirante de uma imagem para outra, o que em O Mundo pode significar flutuar de um regime de imagem a outro. A dançarina Zhao Tao percorre os bastidores perguntando se alguém tem um band-aid, a câmera na mão a acompanhando de perto, até que ela se senta e cola o adesivo no calcanhar.
Uma música surge do fundo e, antes que aquele plano que tão-somente documentava a personagem pondo um curativo no pé vire cena de ficção científica, ocorre o corte para o palco com o espetáculo de dança já em andamento, a música agora em alto volume. O que se segue é uma breve cena musical, momento mágico em que o artista expande sua mise en scène para um “palco” maior.
A ambição do novo filme de Jia vem acompanhada da boa notícia: grande esteta que é, ele remete o princípio de asfixia do plano de seus filmes anteriores a uma vocação de movimento que se dá de forma ao mesmo tempo estável, fluida e majestosa
O Mundo (2004,CHI) Jia Zhang-Ke 19h– Local: Espaço Cinevideo da Video 1, Rua Padre Anchieta, 458. Curitiba/PR Fone: (41) 3223-4343 Data/Horário: 14/06/08 – Entrada Franca.