O Velho E O Mar.

Eu e Gregório confraternizando numa tarde em Cojimar.
Foto Fernando Guimarães.

Gregório, aos 90 anos, mantinha o espírito revolucionário.

Em 1985, antes de o Brasil oficializar relações diplomáticas com Cuba, estive na ilha para fazer um trabalho na TV Rebelde, a emissora oficial do governo revolucionário. Foram nove dias intensos onde eu e meu amigo Fernando Guimarães, um técnico da TV Globo, pouco dormimos. A demanda nos mantinha com a agenda cheia de trabalho durante o dia, e à noite, quando estava proibido dormir, tínhamos dificuldades para escolher o melhor programa etílico-musical.

Uma inesquecível aventura para mim, entre um cabaré e outro, foi o encontro com Gregório Fuentes, marinheiro do Pilar, amigo fraterno de Ernest Hemingway, com quem conviveu até o final. Para encontrar Gregório, viajamos até o Cojimar, um local de atracação no outro lado do canal, cerca de 20 minutos de carro do centro de Havana.

Gregório estava navegando com Papa no dia da pescaria que resultou no clássico O Velho e o Mar. Eles desligaram o motor do Pilar e acompanharam em silêncio absoluto a luta de um velho pescador contra um peixe-de-bico. Segundo Gregório, “foi de tirar o fôlego”.

Contrariando ordens médicas, Gregório nesta tarde exigiu algumas doses de mojitos e apenas um charuto, no que foi atendido sob protestos do gerente do La Terraza, o bar favorito de Hemingway junto ao mar. Como havia meses que Gregório não aparecia no bar, foi aberta uma exceção.

E quis o destino que fosse acontecer logo na minha mesa e por minha causa. Resultado: passei os dois dias seguintes de cama amargando uma ressaca fabulosa. O velho era firme feito uma rocha, curtido durante anos no rum e no mar, e eu acabei voltando para o hotel como um peixe fora d´água, entre borbulhas.

Gregório Fuentes morreu em 2002.

Toninho Vaz, de Santa Teresa

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 50 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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