Na tela

Um estudo paralelo de duas mulheres – uma psiquiatra que vive com um parceiro de longa data e uma esposa em uma família conservadora, quase tirânica – mostrando as possibilidades e limitações que existem para as mulheres na Turquia de hoje.

Clair Obscur|Tereddüt, 2017. Dirigido por Yesim Ustaoglu, 1h 45m| Alemanha, França, Polonia, Turquia. Netflix

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Defignições

Carteira de habilitação – Documento oficial sem o qual ninguém está autorizado a atropelar pedestres, chocar-se com outros veículos e receber multas por uma infinidade de infrações.

Check-up – Uma série de exames rigorosos que a gente faz, para saber como vai o nosso plano de saúde.

Contrapartida – É o novo e eufemístico uniforme do jogo de interesses no campo dos negócios.

Degradação – A baixa qualidade das serralherias quanto à produção de gradis domésticos sem ISO 9000.

Impacto ambiental – Qualquer coisa que qualquer um faça a qualquer hora em qualquer lugar.

Impunidade – Isso que condena a todos por causa de muitos que não são nem serão condenados.

Percepção extra-sensorial – Algo que você acha que viu com os ouvidos, sentiu com os olhos, ouviu com o nariz ou notou com a boca.

Periclitante – É um lugar, condição ou situação onde até os perigos estão a perigo.

Pontualidade – Está em todos os relógios mas daí não passa.

Vigilante sanitário – O mais salutar de todos os empregos insalubres.

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Piada pronta

Alto funcionário do Tribunal Penal Internacional pede a Lula apoio contra o genocídio contra os armênios. Parece piada. Lula não consegue acabar com o genocídio do Brasil. Mas Lula pode ajudar: lá fora é fácil, rende manchete e dá prestígio. E não tem bolsonarista.

Impróprio para maiores

Micheque explica seu silêncio na PF: o lugar era “impróprio“. Ela só fala com Deus, Damares, o Imbrochável e o cabeleireiro dos faniquitos. Tem razão. Todo lugar com Bolsonaros presentes é impróprio para menores de 100 anos.

Nos meus, jamais

Lula quer aumentar a pena para o crime de roubo. Para os de furto, estelionato e peculato, nada. É que tem gente da base aliada envolvida e isso de cortar na própria carne é para suicida que rasga os pulsos. A base aliada não se alia para o roubo e tem horror ao próprio sangue.

Publicado em Rogério Distéfano - O Insulto Diário | Deixar um comentário
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O que há para ouvir

Rádio Galena (cadeia de montanhas junto à costa)

Empresa particular, operando em OM, FM, bula de remédio e Mercedes Benz. Programação totalmente gravada, 32 horas diárias de bom humor e malícia, facécias, pilhérias e chistes. As chalaças cheiram a chamusco, alusões irônicas a todo instante, piadas picantes e situações macabras que fariam corar o Marquês de Sade. Recomendável para quem operou amígdala recentemente. Música de Les Luthiers, composições de Johan Sebastian Mastropiero. Os locutores são todos mancos, não sabem crasear e estão com o pagamento atrasado há 36 meses. Entre quatro e cinco da tarde a emissora faz um minuto de barulho pela morte da poesia.

Rádio Himalaia (198.652 KHZ, ondas elevadas, falta de ar)

Programação de alto nível. A nostalgia é o ponto forte da emissora, quando transmite entrevistas com colunáveis do passado. A última, com Ramsés II, despertou tamanho rancor que um bêbado norueguês apanhou sua bicicleta e nunca mais foi visto na região. As transmissões geralmente acabam em pancadaria, sendo a Himalaia a estação mais ouvida no reino do Butão. A História da Música, em capítulos semanais, promove gincanas, concursos e lutas de boxe entre o público. O canto homófono, que permite ao solista sobressair-se, é o slogan da estação. O futebol, geralmente transmitido domingo antes do almoço, atrai milhares de ouvintes à sede da emissora para linchar o locutor, um grego expulso da Grã-Bretanha por ser fanho, vesgo e arrimo de família.

Rádio Kolsheya (17.984 KHZ, ondas vagas, com direito a brindes)

Emissora japonesa que transmite diariamente meia hora de música catatônica. O resto da programação consiste na fissão nuclear de urânio controlada e interferências. A cada cinco minutos, um locutor gago tenta ler em esperanto um noticiário fictício sobre os problemas da civilização diante de uma dízima periódica simples. As doenças infecciosas e parasitárias recebem tratamento especial durante a madrugada, quando vai ao ar o programa “Focos de Bócio”, com participação dos ouvintes que telefonam pedindo bis.

Rádio Jet-Set (2 KHZ, ondas curtas, curtíssimas)

A base sólida da programação é a hipocrisia. Debates, pontapés e latidos a tarde toda. É a única emissora que permanece apenas um dia por mês no dial. O prefixo musical “Semper Fidelis”, em arranjo para fole escocês, causa imensa dor de ouvidos em todo o pessoal técnico da estação de TV mais próxima. Os ouvintes, que são atendidos através de cartas, são  brindados com garrafas vazias de Liebefraumilch e conselhos que vão desde como manter um crustáceo vivo numa taça de champanhe às notas sociais com erros de português. Destaque especial para os últimos 15 minutos do programa “Tungstênio Sound”,“dublado em alemão, que consegue fazer com que a Academia Inglesa de Futebol com Bola Murcha envie seguidas cartas de protesto ao presidente da FIFA.

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Flagrantes da vida real

Cruelritiba. © Maringas Maciel

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Que inferno é ser um jovem livre em 2023

Que abertura é essa a deles, com 35 laudas de regras a serem seguidas

Quero começar este texto dizendo uma coisa importante: sou de outra geração. Isso me alivia por alguns segundos, mas a desculpa não cola. Então vou tentar de novo. Quero começar este texto dizendo que sou formada de partes boas e partes não tão boas, como todo mundo. Hmmm, não sei, achei clichê, simplório, católico, blé. Quero começar este texto dizendo que não fui eu. Lembram aquela comunidade do Orkut “Não fui eu, foi meu eu lírico”? Vou lançar o “Não fui eu, foi meu eu sexual”. Ficou meio piadinha tosca, e estou tentando parecer profunda aqui.

Vou tentar um papo meio sessão de análise então: algo em mim deseja, algumas (muitas) vezes, o exato oposto do que aprendi com boas autoras feministas (e médias influencers feministas no Instagram que metralham a timeline com frases já ditas por boas autoras feministas). Acho que é isso.

Não pode transar com homem casado que não está em um relacionamento aberto porque é falta de sororidade com a mana casada com ele. Legal, não pode mesmo. Você nem conhece a mana que é casada com ele e ele é um gostoso e você de repente tá na seca há um ano, mas tá certo, não pode. Noventa e nove vezes não pode. Mas tem uma que escapa, não tem? E não é quando algo nos escapa que vivemos? Distraídos venceremos. Escapados gozaremos. Você faz contrato com seu desejo? No inciso 156.B diz que você não pode escapar a nenhuma das outras laudas? Que inferno é ser um jovem livre em 2023.

Não pode transar com chefe e colega de trabalho em posição superior ou aceitar um jogo de poder que possa minimamente te sujeitar. Só de escrever essa frase eu já salivei. Nem 67 boas leituras feministas foram mais fortes do que minha feridinha narcísica delicinha de não ter tido um pai intelectual e firme em seus ensinamentos. Em outra vida eu prometo voltar melhor. Tive um caso com um chefe por sete anos apenas porque ele, 15 anos mais velho, um dia falou que meu trabalho estava uma merda. Como foi sexy aquilo. Saudade de Rita Lee cantando “Vestindo fantasias, tirando a roupa”.

Tenho entrevistado, conversado e convivido com muita gente de 20 e 30 anos. São adeptos de relacionamentos abertos, poliamor, e quanto mais os ouço mais percebo o quanto eu transava mal e errado nessa idade. E mais saudade sinto de transar mal e errado.

Eles criam 35 laudas de regras para que a relação seja aberta. Que abertura é essa com 35 laudas? Eu nunca fui infiel, mas nem por isso deixei de fazer minhas besteirinhas. Um negocinho aqui e ali, raros, esporádicos, livres, maravilhosos, sempre avisados e informados na negociação mais honesta que existe, que é a atmosfera silenciosa do “eu sei que você sabe, eu também sei de você, afinal, estamos vivos, somos humanos, mas ainda existe amor aqui”. Libertos de 35 laudas de regras sobre como trair, que horas trair, até onde contar, como contar, por que contar, para quem contar. Estava ou estou errada?

Provavelmente. Sou velha e não sou boa pessoa? Com certeza. Mas, se a outra opção é deixar de desejar para fora do que se deseja ou desejar seguindo 35 laudas de regras, eu realmente não sei como faz para um desejo sobreviver.

Esquerdomachos, por exemplo. São uma desgraça? Uma terrível perda de tempo? Sem dúvida. Contudo, meu cérebro foi, por décadas, programado para gostar deles. Lembro de um que nunca, jamais, me perguntava nadinha sobre minha vida ou meu dia. Assim como para Lacan, a mulher para ele não existia. Mas me mandava com frequência suas fotos em expedições, palestras, encontros, sempre exausto e suado em nome da militância. Tudo para nos salvar diariamente. Eu pensava “credo, sai daqui nojento, vai pra terapia macho”? Nada. Eu pedia mais fotos. De preferência sem roupa. Vai, gostoso, milita bastante. Me manda esse muque com foice e martelo, seu delícia. Isso, me esnoba, me subjuga, seu tesudo com doutorados em filosofia e ciências sociais. Quem é o objeto?

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Faça propaganda e não reclame

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Vynessa Lucero. © Zishy

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O coração selvagem de Bueno – 2012

Conheci Wilson Bueno em um tempo que havia um mar de ideias, de pensamentos, catarse coletiva de neurônios. Parecia que tudo fazia sentido. O time era de craques. Observar o que acontecia já era uma experiência e tanto. Bueno tinha uma postura transgressora em uma cidade completamente retrógrada e provinciana. Quantos espantos ele causava. Quantas possibilidades inventava por ser do jeito que era. Bueno não apenas discutia, mas escancarava. Tudo nele era excesso, fase em que a boemia tomou conta. Até no jeito de se vestir, quando aos tropeços conseguia parecer um dândi. Quem mais poderia ser assim?

Foi neste ambiente que observei as frestas do que poderia ser plausível, neste mundo que pulsava. O oposto do que acontecia no plano das ideias carregadas de mofo. Neste respiro descobri algo que nunca mais deixei: meu gosto pelo que é transgressor, pelo subversivo, pelo que ninguém mostra. Foi este universo que construí aos poucos, aos trancos, ao dissabor de dores e medos, mas que era possível. Caminho mais difícil, porém revelador.

Aprendi nesse processo algo que acredito que esteja ligado com uma íntima aliança com o que construímos pela estrada, e outro poeta, Ferreira Gullar, fala muito bem, que é não ser dogmático. Permitir-se mudar de ideia, de partido, de religião. Afiar o senso crítico. O que faz repensar, reinventar, não acomodar. Mais, essa abertura permite não carregar ideologias engessadas, mas opiniões. Que podem mudar a qualquer momento. Como bem escreveu Jorge Luis Borges: “Não te rendas. A masmorra é escura, a firme trama é de incessante ferro, porém em algum canto de teu encerro pode haver um descuido, a rachadura”.

É esse descuido que absolve, ilumina. Seguimos intuitivamente essa fresta, assim como lobos enxergam no escuro. Assim também, sem perceber, trilhamos um caminho, às vezes mais longo, com percalços, outras vezes mais lineares e silenciosos. Porém, seguimos adiante. No plano cerebral, desviamos das tempestades, nos protegemos embaixo das marquises até passar a chuva e abrir de novo o céu. Na margem oposta está o medo, e nada acontece se não atravessarmos a ponte. Atenção ao vento veloz que sopra segundos antes.

Por razões desconhecidas e misteriosas, o porto seguro está muito mais ligado à emoção e ao que realmente somos e fazemos. O medo é o outro lado do rio. Superá-lo ou renegá-lo é de certa maneira não reconhecê-lo, não atravessar a ponte. Os medos são a soma de tudo que somos nós. E Bueno carregava seus medos como quem faz disso seu íntimo, seu estado mais profundo. Medo em estado bruto. Talvez por isso tenha feito uma opção de escrita mais selvagem, transgressora e intensa.

Prefiro assim, a intensidade dos instantes em cada pausa, em cada silêncio, em cada palavra, como poema. O coração selvagem entrega assim sua fúria, com toda a delicadeza da cicatriz. A arte, diz Gullar, é necessária porque a vida não é o suficiente. Bueno sabia disso como ninguém.

Revista Ideias|116

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César Marchesini

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Mural da História – 2010

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Após Dia do Patriota, vereadores propõem Dia do Trabalho Escravo

A Câmara Municipal de Porto Alegre revogou a decisão de tornar o dia 8 de janeiro o Dia do Patriota. A escolha da data seria para homenagear a invasão e depredação das sedes dos Três Poderes, no início do ano.

A lei foi suspensa pelo ministro do STF Luiz Fux, que afirmou que a data não merece comemorações, por motivos evidentes.

Porém, alguns vereadores de Porto Alegre não desistiram da comemoração e planejam fazer um grande evento no dia 8 de janeiro, com desfiles e festejos.

A ideia é realizar uma parada com diversas alas, como acontece no Sambódromo no Carnaval carioca. A festa vai começar com a entrada do Patriota do Caminhão, seguido pela ala dos destruidores de patrimônio, com patriotas depredando esculturas, relógios e obras de Di Cavalcanti.

A rainha da bateria será a grande heroína da data, Dona Fátima de Tubarão, que vai entoar a canção “Eu quero guerra! Vamos pegar o Xandão!” enrolada na bandeira nacional.

A ala dos negacionistas contará com integrantes contestando as urnas, vacinas e teorias de Darwin. Os passistas usarão chapéus de papel alumínio, para se proteger do controle mental do reptiliano esquerdista Bill Gates.

Logo atrás, entrarão patriotas com celulares na cabeça, pedindo aos extraterrestres para que salvem o país.

Um dos momentos mais aguardados é a entrada da Ala do Patriota Defecador, na qual pessoas enroladas na bandeira nacional defecarão em móveis em um enorme cocozaço.

As festas serão financiadas por pensões de filhas de militares, que durante o desfile farão o que melhor sabem fazer, nada.

Além do Dia do Patriota, vereadores planejam criar novas datas comemorativas, como o Dia do Padre do Balão, para homenagear o pároco que saiu voando em bexigas sem GPS.

O Dia do Bilionário vai celebrar a não taxação de grandes fortunas e será comemorado por liberais de classe média em uma carreata de Corsas 2007 remendados com silvertape.

O Dia do Pintou Um Clima vai homenagear ex-presidentes que invadem casas de crianças com segundas intenções.

E o Dia do Trabalho Escravo vai homenagear produtores de uva que mantêm funcionários em situação análoga à escravidão no Rio Grande do Sul, justamente no estado de origem do Dia do Patriota.

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Num país pertinho de você…

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