Portfólio

Década de 1980. Múltipla Propaganda & Pesquisa.

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Faça propaganda e não reclame

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Vendem-se rins e rebentos

Comprar armas, usar drogas e vender o rim ou o filho, ok; mas aborto não

Javier Milei ganhou os holofotes no cenário latino-americano. Um tanto pela façanha de ter surpreendido nas prévias da eleição argentina, outro tanto por seu perfil histriônico, meticulosamente emoldurado num cabelo despenteado. Mas qual é a novidade de um político que se vende anarquista, mas odeia as mulheres? A novidade é que ele se vende como o liberal que abraça todos os direitos individuais. Quase todos.

“Minha primeira propriedade é meu corpo. Por que não posso me livrar do meu corpo?”, questionou Milei ao defender o comércio de órgãos humanos. O mesmo raciocínio foi usado no começo da campanha sobre a venda dos filhos. Sim, dos filhos. Por seu entendimento, crianças são propriedades dos pais, que teriam o direito de fazer uma grana com os rebentos. Foi uma gritaria, o assunto morreu.

O anarquista argentino seria um clichê ambulante para quem já viveu a era Bolsonaro: quer Estado mínimo, é a favor da liberação de armas, é contra programas sociais, não acredita em mudança climática. Ao menos em público não defende a ditadura sanguinária em seu país.

Milei se diferencia de Bolsonaros e Trumps em alguns assuntos, mas seus argumentos passam longe da racionalidade ou da empatia. Ele defende a legalização das drogas (“se quer se suicidar, não vejo problema”) com a mesma premissa que usa ao não se opor a relações homossexuais ou a questões ligadas à identidade de gênero: “Você acha que é uma onça-parda? Faça isso, não importa. Desde que não me faça pagar a conta”.

O mesmo Milei que defende o corpo como “propriedade privada” é contra o aborto. Nenhuma novidade, não é? O “liberal” disse que, eleito, pretende realizar um referendo para tentar reverter a legalização da prática, aprovada em 2020. Comprar armas, usar drogas, vender o rim ou uma criança parida, OK. A mulher decidir se quer levar uma gravidez de até 12 semanas adiante, aí já é demais.

Publicado em Mariliz Pereira Jorge - Folha de São Paulo | Deixar um comentário
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Quando Curitiba viveu uma guerra por causa de um pente

Se fosse hoje seria a “Nota Paraná”, mas há 62 anos o nome da campanha que incentivava os consumidores a pedirem nota fiscal era “Seu talão vale 1 milhão”. Moysés Lupion era o governador do Estado e Iberê de Matos, o prefeito de Curitiba. Disposto a concorrer  ao prêmio de um milhão de cruzeiros ( o dinheiro da época), o subtenente da Polícia Militar do Paraná Antônio Haroldo Tavares pediu uma nota fiscal ao comprar um pente por 15 cruzeiros no Bazar Centenário, do comerciante sírio-libanês Ahmad Najar, na Praça Tiradentes, no Centro de Curitiba. Era 8 de dezembro de 1959, uma terça-feira. Fim de tarde.

Nem o militar, que oficialmente invocou o seu direito de contribuinte, nem o comerciante. que se recusou a emitir a nota, poderiam imaginar o que aconteceria em seguida. Os dois discutiram. Antonio argumentou que pedir a nota não era apenas uma questão de dinheiro, mas sim de princípios. O comerciante alegou que a legislação dispensava a emissão de nota fiscal de valor irrisório. Estava criada a encrenca.

Seguiu-se uma briga no interior da loja, com socos e pontapés para todos os lados. Foi quando o comerciante decidiu botar o comprador para fora do bazar.  Para isso, contou com a ajuda de quatro empregados. Jogado na calçada, o subtenente teve uma perna fraturada. Diz a lenda que, na confusão, o pente quebrou.

Três dezenas de pessoas viram a cena e tomaram o partido do militar. Não deu outra: em poucos minutos o Bazar Centenário foi praticamente destruído e  o estoque jogado na calçada. A revolta se espalhou para a praça e ruas próximas. As 30 pessoas rapidamente viraram 200. A Praça Tiradentes tinha virado um palco de guerra – a famosa Guerra do Pente.

Enquanto lojas eram saqueadas, queimadas e destruídas, o comerciante foi conduzido a uma delegacia de polícia; o militar, levado a um hospital.

O número de revoltosos aumentou com a chegada das pessoas que saiam do trabalho. A polícia cercou a praça, mas confusão continuou noite a dentro. Um balanço no início da madrugada do dia 9 contabilizou 30 presos e dez feridos, oito dos quais eram policiais. Ou guarda civis, como se dizia naquele tempo. Não houve trégua.

A guerra continuou no dia 9. O quebra-quebra generalizou-se, contando agora com as pessoas que vinham dos bairros para o centro. O povo não se intimidou. Nem mesmo os tiros disparados para o alto pelo comerciante Salim Mattar, dono da Casa Três Irmãos, foram capazes de assustar os revoltosos. Embora tanques do Exército tivesse ocupado a Praça Tiradentes, os distúrbios continuaram. Os ânimos estavam exaltados. O comércio e os comerciantes, principalmente os de origem estrangeira, eram alvo dos chamados “desordeiros”, segundo a polícia.

Apesar do reforço policial, do Corpo de Bombeiros e das tropas do Exército, no dia 10 de dezembro ainda foram registrados ataques a lojas e bancas de jornais e revistas. O centro de Curitiba foi isolado pelas autoridades e antes mesmo de um possível toque de recolher, marcado para as 20 horas, a revolta parou. Até porque, no fim daquele dia, uma garoinha, típica de Curitiba, encobriu a cidade.

No total, mais de 120 lojas foram depredadas – algumas inteiramente destruídas – em vários pontos do centro. Prédios públicos também foram atacados. Cerca de 30 mil pessoas foram às ruas participar da “guerra”.

Por alguns dias, pelotões de soldados tomaram conta do centro. Os bares foram obrigados a fechar às 20 horas. A Rádio-Patrulha aumentou as rondas pelas ruas e praças centrais.

A revista semanal O Cruzeiro, dona da maior circulação no Brasil naqueles tempos, publicou ampla reportagem sobre a guerra. E o título não poderia ter sido mais sugestivo: “Pente faz Curitiba perder a cabeça”.

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Dina Kutner de Sousa, Dina Sfat, (1939|1989). © Antonio Guerreiro

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Mural da História – 1984

11º Salão Internacional de Humor de Piracicaba – 1984

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A vida como ela é

Longe daqui, aqui mesmo. © Maringas Maciel

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Contwitters de alguém que nem pia

% A psicanálise falha porque quer mexer com coisa que poucas pessoas têm — memória. % Fazer o que é proibido pode ser mais prazeroso. Mas não tente fazer sexo com uma jaguatirica. % Branca de Neve e os Sete Anões não deixa de sugerir uma alta pornografia. % Quando a gente brinda com bebida alcoólica dizendo saúde, só pode ser pela saúde financeira do fabricante da bebida. % Médico — ser humano encarregado de provocar ataques cardíacos com más notícias sobre a saúde alheia.

% E se o ser humano for o tal aborto da natureza? % O sexo pode estar lá embaixo. O problema é que, quando sobe, bate na cabeça. % O homem, às vezes, possui a mulher que tem o homem quando bem quer. % Solidão se vê é no casamento — dois juntos fazem a mais completa. % Numa sociedade de cordeirinhos — uive. % Adoro cult movies — principalmente porque não preciso contar o enredo pra ninguém. % Depois do cinema 3D teremos o cinema holográfico e, por fim, os atores virão pessoalmente em nossa casa pra representar.

% Os filmes, hoje, são rigorosamente proibidos pra maiores de 30 anos. % Quem diz que tem uma filosofia de vida — ou não sabe o que é vida ou nunca leu um livro de filosofia. % Um milhão de dólares continua sendo um milhão de dólares — só barateou a qualidade de quem pode ter. % No futuro, adeus, pertences!

*Rui Werneck de Capistrano não é bobo nem nada

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Planeta Água

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Tudo isso junto

Solda & Paulo Leminski, 1989. Foto de João Urban

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Lina Faria, fazendo

Na abertura da Gibicon 2|2014, no Muma, Lina Faria. © Dóris Teixeira

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Flagrantes da vida real

Computa, computador, computa! (Millôr Fernandes). ©  Maringas Maciel

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© Jan Saudek

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O nosso Patrimônio da Humanidade

Rettamozo é uma força da natureza. Pertence à categoria dos vulcões. O único em Curitiba em plena atividade. Ninguém que eu tenha conhecido nesta vida e provavelmente em todas as anteriores e em todas as vindouras pode sequer ser comparado ao Retta em matéria de energia criativa.

Rettamozo é uma singularidade. Curitiba não sabe que vive e torno dele como os tibetanos à sombra do Himalaia. Alguém que saiba filmar e esteja à procura de um tema urgente e eletrizante precisa sair correndo da sua inércia e fazer o melhor e mais importante documentário de sua vida: comece hoje a filmar o Rettamozo e o que ele produziu aos borbotões durante muitos e muitos bilhões de minutos. Terá assunto para se ocupar por mais de um século, se quiser. Rettamozo, tenho orgulho de pertencer à sua espécie e de ter vivido o seu tempo. Sou imensamente grato às conjunções caóticas que nos fizeram conviver nas mesmas oficinas – gênios coletivos em tempo integral.

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