
© César Marchesini
Quis no verão sua morada, e o ímpeto com que serpenteia da nuvem ao telhado e dali às caleiras da casa, ninho suspenso entre o arrozal e as águas.
Há, contudo, diversas espécies de chuva — de chuviscagens a chuvões, veros maremotos, bebendo a Terra, rios e lagos, riachos e cascatas.
Se me sugas feito um vício eu sou a chuva que teu chão lambe com uma volúpia de amantes entranhados – um no outro encharcados até a última gota e a derradeira raiz mais chã.
Lavas-me o rosto a esguichos; brinco de intempérie sobre o vosso ventre. Líquidos e miasmas, cobrem meu corpo vossas mágoas. Águas? Cantam as calhas nosso lamento, longe, enxurrada em lá maior, aguaceiro, coral de anilhas.
Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a ingratidão – essa pantera –
Foi tua companheira inseparável.
Acostuma-te à lama que te espera!
O homem, que, nesta terra miserável,
Mora entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Toma um fosfóro. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!
Publicamente, o PL defende Zambelli ao chamar de “barbaridade” a operação da Polícia Federal que fez busca e apreensão de documentos em seu gabinete na Câmara. Reservadamente, os colegas reconhecem que talvez seja preciso “entregá-la” para poupar o ex-presidente Jair Bolsonaro da culpa.
Na coletiva dada pela deputada na quarta-feira (2), apenas 10 parlamentares do PL – de uma bancada de 99 na Câmara – compareceram para apoiá-la.
A rejeição a Zambelli no PL se estende das alas mais moderadas até os bolsonaristas mais radicais, que atribuem às atitudes da parlamentar parte da responsabilidade pela derrota de Bolsonaro. O episódio em que ela perseguiu armada um jornalista pelas ruas de São Paulo é sempre citado pelos colegas como fator determinante para o resultado.
A ausência de uma defesa coordenada e enfática dos colegas, segundo um deputado do PL, é o sinal mais claro possível de abandono. Pode até haver declarações públicas, mas sem esforço para salvá-la.
A grande fogueira dos livros
Renato Feder não se contentou em ferrar com a educação do Paraná e de São Paulo. Para deixar sua marca em defintivo, achou que era o caso também de acabar com a indústria do livro no Brasil. E talvez tenha conseguido isso com uma única canetada – olha só a eficiência do homem.
Secretário de Educação do maior estado brasileiro, Feder, que nunca pisou numa sala de aula, achou que todos os livros autorizados pelo MEC são péssimos, um lixo. E decidiu que só os que ele e sua escreverão valem. Por isso, preferiu perder R$ 120 milhões e sair do PNLD. Os alunos paulistas terão de usar livros digitais. E quem não tiver computador ou Internet em casa? Ora, a resposta é a mesma que ele deu na pandemia: “Se virem!”
Quanto aos fim dos livros e à falta de pluralidade que isso trará, não há com que se preocupar, diz Feder. O que ele quer é um ensino “técnico”. Ou seja: nada de ensinar filho de pobre a pensar. É a grande fogueira dos livros no Brasil, só que de um jeito mais esperto: nem precisou acender o fogo.
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Em um pequeno supermercado de uma cidade operária, um homem negro sorri para um menino branco de 10 anos. Esse gesto inocente provoca uma guerra implacável entre duas gangues.
Brinquedos sexuais ajudam o público feminino a abusar de outros perigos sociais, como autonomia e feminismo
O Dia Mundial do Orgasmo foi celebrado na última segunda. Assim como o Dia dos Pais, apenas um pequeno número de pessoas pôde comemorar. Estudos apontam que três em cada dez mulheres com vulva cisgênero atingem o orgasmo durante a prática do sexo.
As poucas sortudas que desfrutam de algum orgasmo ganharam um balde de água fria. Uma reportagem da Folha na data da comemoração diz que o uso constante de vibradores pode limitar a satisfação sexual.
O estímulo proporcionado pelo aparelho, segundo psiquiatras e sexólogos entrevistados, poderia fazer com que a pessoa perca o interesse por outras formas de prazer.
A notícia causou indignação. Muitos acusaram a Folha de censurar o prazer feminino.
Como usuária de vibradores, uso meu lugar de fala —ou de falo, com o perdão do trocadilho —para falar do assunto.
Sim, o vibrador pode limitar o prazer. Afinal, qual mulher vai querer algo que não seja um objeto de orgasmos intensos, rápidos, a qualquer hora?
Quem abriria mão de um brinquedo sexual que mexe em diferentes velocidades, movimentos, não perde a constância, não se cansa, não dorme depois de gozar e não se muda para sua casa para que você faça comida e lave a louça dele?
Pior, o vibrador é capaz de acabar com a magia de termos um parceiro na caça ao tesouro do clitóris que pode demorar horas, até anos. Isso quando há interesse em achá-lo.
Para quem nunca experimentou, explico: é como experimentar uma cerveja puro malte para, depois, voltar a tomar uma Skol latão que, mesmo sendo grande e roliça, só serve para dar dor de cabeça.
Algumas mulheres passam a querer usar seus brinquedos sexuais todos os dias. Pior, várias vezes ao dia. Em breve, elas vão consumir pornografia. Exigir uma categoria só para elas no XVideos. Se masturbar no banho. Até se apropriar da gíria masculina “banheta”. Onde já se viu?
O vibrador pode até ser a porta de entrada para outras drogas, como a autonomia e a luta contra o patriarcado. Imagine só perdemos nossas filhas para o feminismo? Isso seria uma grande tragédia.
O que nos alivia é que finalmente encontraram o real motivo da nossa dificuldade em atingir o orgasmo. Não, não é a pressão estética, a baixa autoestima, as 24 horas de trabalho, os salários mais baixos e a falta de dedicação dos homens. A culpa é do vibrador.