O eleitor do Renato Freitas não morre de tédio. Desde que ele assumiu o mandato de vereador, já foi preso, cassado, voltou ao mandato, chegou à Assembleia, comprou briga com um deputado bolsonarista barra pesada e foi denunciado de novo a um Conselho de Ética.
Hoje a notícia é que ele escapou de mais uma bala. O novo caso contra ele foi arquivado pelo Conselho de Ética da Assembleia – em boa medida porque ele teve a sorte de pegar Tercílio Turini (um dos poucos homens justos no plenário) como relator. As denúncias contra o ultrabolsonarista Ricardo Arruda tiveram o mesmo destino.
Isso não quer dizer que o tédio tenha enfim chegado à vida de Renato. A direita raivosa continua de olho nele e, na primeira oportunidade, o enredo começa tudo de novo.
Um clássico da misoginia nossa de cada dia, uma das variações que ajuda a definir a cultura do estupro
Há muitas perguntas sobre o roteiro de horror do estupro de uma mulher em completo estado de vulnerabilidade, em Belo Horizonte. Por que os amigos com quem assistia a um show deixaram que ela fosse embora sozinha diante do seu estado de embriaguez? Como o motorista de aplicativo abandona uma mulher desacordada numa calçada durante a madrugada? O que passa na cabeça de um homem, capaz de carregá-la inconsciente por três quilômetros para estuprá-la?
No entanto, uma pergunta que reverbera nas redes desde que o crime virou notícia é “quem mandou beber?”. Um clássico da misoginia nossa de cada dia, uma das variações que tão bem ajuda a definir a cultura do estupro. Por que estava com essa roupa? Isso é jeito de se comportar? Por que a família não fez nada? Sabemos que tudo se traduz numa questão mais simples: quem mandou ser mulher?
A reação desprovida de empatia nas redes nos traz ao menos a resposta de por que o Brasil se transformou na sociedade do estupro, na qual a violência é relevada e as vítimas seguem desprotegidas.
Também serve para entendermos por que os índices revelados no Anuário Brasileiro de Segurança Pública batem recorde no país, onde um caso é registrado a cada sete minutos.
No imaginário coletivo, a figura da mulher bêbada, seminua, sozinha, se divertindo é a resposta para tantos casos de violência sexual. Quem mandou ser mulher, não é mesmo? Mas o que este pensamento revela é mais do que cumplicidade. Parte dessas pessoas seria capaz de fazer o mesmo, estuprar uma mulher desprotegida ou ser conivente na omissão de socorro, porque enxerga na vítima a razão da sua própria agressão.
É parte da sociedade que ignora as estatísticas de que crianças e adolescentes são alvo preferencial de estupradores, que se aproveitam da vulnerabilidade daqueles que não sabem ou não conseguem se defender, exatamente como a mulher violentada no campo de futebol.
Eles estão sempre discutindo e decidindo a minha vida — a portas fechadas, na mesa de um café, na rodada de cerveja, no escuro do quarto. Não consigo acompanhar as andanças desses que discutem e decidem minha vida. Às vezes é pouca coisa — se ele mudasse o penteado… Se parasse de usar roupas de jovens… Se fosse consultar uma sortista… A essas coisas até que não dou muita importância — e isso também é motivo de discussão entre eles: se ele desse mais importância às pequenas coisas desse tipo… Muitas vezes nem fico sabendo o que foi discutido e decidido.
Só colho olhares atravessados, sorrisos forçados, gestos dissimulados e indiferença. A massacrante indiferença! E sinais — sim, sinais! Eles fazem questão de me dizer você não prestou atenção aos sinais que enviamos. Sinais — um dia sem palavras, um trancar de porta, a falta de convite para a festa, a roupa íntima nova, a demora para atender ao telefonema. Benditos e silenciosos sinais! O ar fica pesado e frio. Quando o assunto é mais sério, envolve decisões drásticas e exige imediata tomada de decisão — e ação — me chamam — sem palavras, só com gestos — a uma sala preparada para o momento. Até jarra de água e copos estão à espera. Nem precisariam falar nada, dar ordens ou fazer a acusação final. O aparato já me faz ver que fui condenado e terei de cumprir a pena. Pode ser demissão, rebaixamento de cargo, fim de uma relação amorosa ou cessação de algum benefício por eles concedido anteriormente. Já conheço o teor da peroração — é sempre para o meu bem — os desejos explícitos — boa sorte, tudo vai se ajeitar. Fique bem! Nem as palavras eles conseguem mudar. E nem precisariam — seria muito esforço para o mesmo final.
Decoraram tão bem as expressões que — acreditam — com elas obtêm expressivo resultado em qualquer situação. Faz parte da estratégia deles serem sempre iguais — surte efeito, alivia a consciência. Tinha que ser assim — eis o fim. E sabem que isso vai me fazer ferver por dentro, sem ter como reagir. O sangue que some do rosto, os olhos que se perdem no vazio, o frio que se instala no estômago, as pernas que fraquejam. Talvez riam disso depois. A única questão que nunca abordam é quanto ao andamento das suas próprias vidas depois do que fazem com a minha vida. Parecem soberanos quanto a isso. Têm olhos firmes no futuro, objetivos sólidos e vontade férrea.
Nunca tentei argumentar a esse respeito. Aferrei-me a um antigo preceito — tão antigo como o próprio mundo — e me dou por feliz. Hesíodo disse e está dito — os deuses são caprichosos. Ponto final.
*Rui Werneck de Capistrano escreve errado por linhas tortas
No jornal Cândido de julho, da Biblioteca Pública do Paraná, Hiago Rizzi mergulha no universo da teledramaturgia brasileira e investiga sua relação com a literatura. A reportagem analisa as mudanças e aponta os rumos deste tema que fascina o público mundial pela narrativa e identidade. O especial apresenta ainda uma seleção de livros e novelas adaptadas.
Este número traz também uma entrevista especial com José Celso Martinez Corrêa — que faleceu neste mês, em São Paulo, aos 86 anos —, concedida a Sábato Magaldi e Perla D. Melcherts em 1990, para o suplemento cultural Nicolau, editado pela Secretaria do Estado da Cultura (SEEC) até 1998.
A especialista em literatura hispano-americana Josely Vianna Baptista traduz o poeta mapuche Leonel Lienlaf, nascido em Alepue, Chile. Os dois poemas publicados no Cândido integram Ül: Four Mapuche Poets (1998), e foram traduzidos a partir da versão original em espanhol. Os originais em mapudungun ilustram a riqueza do idioma dos Mapuche.
Outros destaques do Cândido 140: um editorial da fotógrafa Mariana Alves, no centro de Curitiba, poemas de Douglas Laurindo e textos de Fernanda Ribeiro e Nícolas Wolaniuk, dois ganhadores da 5ª edição do Concurso Literário Luci Collin, promovido durante a XXV Semana de Letras da UFPR. A ilustração da capa é de Raro de Oliveira.
Serviço: Jornal Cândido|Publicação de literatura editada desde 2011
Estudantes da rede municipal de ensino irão assistir à peça da premiada autora e diretora Fátima Ortiz, que conscientiza sobre a importância da água para o ser humano e o planeta
De 1º a 4 de agosto crianças entre 5 a 12 anos da rede municipal de ensino de Curitiba irão ao teatro assistir à peça “O Olho D’Água”, espetáculo que tem o objetivo de sensibilizar e principalmente conscientizar os pequenos sobre os riscos de a água não ser tão abundante quanto parece e sobre sua importância como elemento fundamental da vida.
A montagem do espetáculo é uma realização da Companhia Pé no Palco em parceria com a associação Palco Escola Ações em Valores Humanos, e conta com texto e direção de Fátima Ortiz, composição musical de Rosy Greca, cenário e figurinos de Ricardo Alberti e Carmen Rodriguez. O elenco é formado pelos atores: Alini Maria, ErtaAle, Giselle Lima, Julyana Spriscigo, Pedro Bonacin e Saulo Soull.
Para a diretora Fátima Ortiz, manter a criança familiarizada com a cultura, arte e o teatro é fundamental. “A criança cria o faz de conta e brinca de fazer teatro desde muito pequena. Por isso, quando ela assiste a uma peça, se envolve muito rapidamente… É importante que o que ela veja no palco seja mágico, fantástico e também com uma dose de elementos da sua realidade… Esse equilíbrio promove sentimentos e sensações que podem transformar e enriquecer o mundo sensível da criança”, explica e completa: “o teatro refina o processo de educação do mundo sensível”.
Em um primeiro momento, as apresentações serão fechadas e exclusivas para os estudantes da rede pública de ensino, para a democratização dos bens artísticos e culturais. Em um segundo momento terá um espetáculo aberto e gratuito para o público em geral.
Sobre O Olho D’Água
A peça é sobre uma troupe de artistas viajantes onde personagens de tempos e lugares diferentes procuram o primeiro olho d’água que se escondeu no planeta, para plantar na sua nascente, as flores que farão a água brotar ali, para sempre. Os personagens são a menina, brisa, princesa, sapo, menestrel, tintureira e um mágico que conduzem a história e levam até uma terra encantada. No caminho emoções, sonhos, encontros e desafios.
A peça busca sensibilizar e conscientizar a criança sobre os riscos de a água não ser tão abundante quanto parece e sobre a importância da água como elemento fundamental da vida. “É uma viagem alegre em busca da nascente escondida em um lugar mágico. A história, a música, as danças convidam a criança a estar junto na busca. O amor a família aos amigos e a natureza são despertados”, analisa a produtora Giselle Lima
Na trajetória que leva as crianças até o Olho D’Água, são trazidas várias experiências de cuidados com a natureza: sobre o lixo que polui os rios e as cidades e a importância dos cuidados com os descartes poluentes, a coleta seletiva e a reciclagem. “Mais do que tudo o que vale é passar ideias e reflexões sobre o que nos acontece quando temos um desafio e como é legal resolver criativamente os problemas que surgem”, completa Giselle.
Este projeto foi aprovado pela Lei Federal de Incentivo à Cultura, e conta com o patrocínio através do incentivo fiscal das empresas Itambé e Servopa.
ELENCO: Menina e olho d’água: Alini Maria|Pai, mágico e rei: Pedro Bonacin|Mãe, tintureira e rainha: Julyana Spriscigo|Amiga, princesa e brisa: Giselle Lima|Amigo e sapo: ErtaAle|Menestrel: Saulo Soull
FICHA TÉCNICA: Texto e Direção: Fátima Ortiz|Composição e Direção Musical: Rosy Greca|Cenário: Ricardo Alberti|Figurino e Bonecos: Carmen Rodriguez |Adereços: Carmen Rodriguez, Ricardo Alberti e Tania Santos|Iluminação e operação de luz: Márcio Junior |Operador de Som: Junior Ventura|Vozes Sábio, Princesa e Sapo: Enéas Lour, Zime Bagana e Douglas Sartori|Coreográficas: Elenco com supervisão de Juliana Ribeiro |Cenotécnico: Fabiano Hoffmann|Designer Gráfico: Luana Chemin|Registro de Imagem (fotos e vídeos): Eli Firmeza|Produção Executiva: Tania Santos|Direção de Produção: Giselle Lima
SERVIÇO: Espetáculo O Olho D’Água|Quando: De 1º, 3 e 4 de agosto|Onde: Guairinha|Horário: manhã e tarde, com apresentações fechadas para escolas da rede municipal de ensino de Curitiba.
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