Curiosa é a vida dos escribas… Há títulos em que pomos um tudo de fantasia e expectativa e vemos que, fragarosamente, não dão em nada. Ao menos quanto à receptividade do público-leitor. O escritor Cristovão Tezza me confessou recentemente, por exemplo, que pouco ou nada esperava de seu romance “O Filho Eterno”. Errou feio: o livro levou todos os prêmios literários de 2008 no Brasil, já alcança a casa dos 20 mil exemplares vendidos e será publicado em vários países.
De meu lado, nas férias do último verão, descansei carregando pedra (né mesmo, Claudinha Slaviero?). Tendo como cenário a minha amada ilha de São Francisco, em Santa Catarina, na deslumbrante casa “al mare” do primo Luiz Carlos Bueno, me impus um desafio, sempre adiado: escrever uma história para crianças de 0 a 100 anos. Na melhor tradição do bruxo de minha devoção, Lewis Carroll, o gênio de “Alice no País das Maravilhas”.
A ousadia rendeu uma fábula em versos (“O Gato Peludo e o Rato-de-Sobretudo”) que, para minha honra e orgulho, vertida ao espanhol pela poeta uruguaia, Ana Chamorro ; ao inglês novaiorquino, por André Cechinel; e ao guarani “salvage” por Douglas Diegues, caiu nas graças de inúmeras “cartoneras” latinoamericanas – do Uruguai ao México, capitaneadas pela Dulcinéia Catadora, de São Paulo.
As “cartoneras”, editoras alternativas, sem fins lucrativos, trabalham com papelão comprado dos carrinheiros e envolvem, na confecção dos livros, os filhos dos catadores de papel. O “miolo” dos volumes é programado via computador. As capas, irrepetíveis todas!, são feitas, e grampeadas, uma a uma, pelos meninos ligados às ONGs, num trabalho singularíssimo. Penso seja o que há de mais “guevarista”, “hasta la derradera ternura”, em “nuestra América”. Não confundir, claro, com Fidel Stalinista Castro & caterva…
A utopia guevarista, diga-se logo, não morreu. Sonhará sempre com um mundo mais humano, democrático e, claro, com justiça, pão e arte para todos. Desisti de comunismos há décadas e considero o liberalismo uma balela para enganar desprevenidos… O “guevarismo”, por certo, um dia há de triunfar! Mano Solda que o diga. Acho que somos os dois únicos adeptos “oficiais” do guevarismo…
E para coroar a semana, recebo a primorosa edição da Katarina Kartonera, recém-criada em Floripa por Dirce Waltrick e Sergio Medeiros, com dois exemplares de “O Gato Peludo e o Rato-de-Sobretudo”. Nos mesmos moldes de todas as cartoneras daqui e do exterior! E o que é melhor, em edição bilíngüe: português mais a versão ao inglês do “novaiorquino” André Cechinel. Te cuida, Lewis Carroll!
É isso, velho Tezza :“Deus quer/ o homem sonha/ a obra nasce”. (Fernando Pessoa).
Diante da série de investigações que avançaram ao longo do ano sobre Jair Bolsonaro, ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) mudaram sua percepção sobre uma prisão do ex-presidente. Se em janeiro a avaliação era a de que uma prisão poderia tumultuar o cenário nacional e aumentar seu capital político, hoje a leitura é de que as chances de o ex-presidente escapar de uma punição são pequenas.
Quatro magistrados ouvidos pela coluna avaliam que, pelos elementos já tornados públicos — como a falsificação dos cartões de vacina, as joias da Arábia Saudita e, em especial, a arquitetura de um golpe de Estado envolvendo diretamente Bolsonaro —, “é muito difícil” que o ex-presidente receba uma pena que mantenha sua liberdade.
DELAÇÃO É FRACA – Mesmo com as dúvidas levantadas pelo subprocurador-geral Carlos Frederico dos Santos sobre a delação do ex-ajudante ordens da Presidência Mauro Cid, os ministros da corte receberam informações de que a Polícia Federal avançou em provas ligadas aos fatos narrados pelo militar. Em entrevista ao Globo, Santos afirmou que a delação “é fraca”.
No STF, a expectativa é que a PF conclua em três meses a investigação sobre a atuação do ex-presidente em um plano golpista para impedir a posse de Lula. Esse é o caso considerado o mais grave e que pode levar Bolsonaro à prisão para os ministros da corte.
Os ministros seguem com a opinião de que hoje não há elementos que justifiquem uma prisão preventiva do ex-presidente e defendem que ele precisa ter “todas as garantias do processo legal observadas” nos processos pelos quais responde.
MAURO CID, o coronel ajudante de joias de Jair Bolsonaro, declara à PF que a primeira dama e o filho Eduardo “incitavam” o presidente a dar o golpe contra as eleições. Correção: Eduardo pode ser que incitasse, pois é um dos líderes do movimento de direita na América Latina, patrocinado por Steve Bannon e pelo falecido Olavo de Carvalho; Michele, não, ela se limitava a excitar outro movimento do marido com a pouca vergonha do imbroxável. De qualquer forma o golpe não funcionou, sobretudo por falta de excitação.
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, prometia um déficit zero no Orçamento. O presidente indicou duas vezes que isso era impossível. Abriu-se uma grande discussão.
O que é melhor para o País, perguntam os economistas? Equilíbrio fiscal, baixa taxa inflacionária, crescimento estável ou garantia de uma rede de proteção social e infraestrutura? É um debate clássico, que tem raízes até no nosso inconsciente infantil, marcado pelas histórias da cigarra e da formiga e da frágil casa dos três porquinhos.
Para além da discussão puramente econômica, há outros fatores que também são discutidos ou fatores que nem aparecem no debate.
Os também clássicos temas discutidos referem-se ao comportamento de um governo em ano eleitoral. Sempre que houver um dilema entre austeridade e aumento de gastos, a tendência no período de eleições é optar pelo segundo.
Mas não é uma discussão tranquila. Há uma frase inspirada num analista americano que costuma explicar o resultado eleitoral assim: É a economia, estúpido!
Porém, se ela fosse totalmente verdadeira, como explicar a vitória do peronismo na Argentina, no meio de uma profunda crise econômica? Como explicar as vitórias eleitorais do chavismo na Venezuela já com o país em decadência?
Existem maneiras de driblar essa frase. O populismo sabe fazê-lo muito bem, buscando no auge de uma crise econômica garantir vantagens para alguns setores. Bolsonaro concedeu bolsas para taxistas e caminhoneiros com esta esperança de garantir a fidelidade de um grupo eleitoral. E talvez a tenha garantido, só que não conseguiu convencer os setores mais pobres acostumados a associar o Bolsa Família aos governos de esquerda.
Mas existem, também, temas sobre o orçamento que não são discutidos aqui. Na China, segundo os jornais ocidentais, houve um debate porque o orçamento prioriza carros elétricos e semicondutores, apesar das grandes necessidades no campo da habitação. Em Portugal, na véspera da queda do primeiro-ministro, o Partido Comunista lançou um manifesto criticando o orçamento por achar que o Partido Socialista privilegia a direita e vai privatizar a TAP.
No Brasil não há discussão sobre prioridades, assim como há pouca discussão sobre o papel da iniciativa privada e dos investimentos estrangeiros. Às vezes, a impressão que se tem é de que tudo terá de ser feito com recursos do governo.
Já mencionei algumas vezes aqui o livro Mission Economy, da italiana Mariana Mazzucato. Ela mostra como a parceria entre governo e iniciativa privada é fértil, inclusive na conquista da Lua.
quero ser preto preto retinto da meia-noite até quinze para as cinco quero ser chamado de resto de incêndio raspa de chaminé quem disse que eu não posso ser pelé? escurinho, crioulo, piche, tição mancha negra, q suco de feijão deus de ébano, frango de macumba desmond tutu
Letra e Música de Marcos Prado, Antônio Thadeu Wojciechowski, José Alberto Trindade e Edilson Del Grossi Fonseca
Dá na mesma. Villon, Baudelaire, Leminski, Bukowski et caterva. Os reflexos ainda estão nas janelas, nos blogues, nos bares, nos livros. Aquela azia, a sede imensa logo de manhã, a bexiga implorando perdão, a cabeça batendo estaca, o sol ardendo nos olhos. Alma na mesa. Bar fedido. As palavras tontas e tão loucas jorrando. Litros de vodka, rum, cachaça, uísque, gim pelo ralo. Cigarro, cigarro, pigarro, tosse, catarro. Barba, cabelão, inchaço, podridão. Poemas em guardanapos. Discussões sem-fim só pelo amor à última palavra, à conceituação equivocada, aos olhos arregalados.
Sempre tive a impressão de que a palavra salvaria o mundo. Um verso perfeito, um conto magistral, o romance do século. Le mot just. A palavra, porém, nunca se esgota. Mas nos esgota. A gente vai puxando o fio da merda e ela vai ressuscitando Kerouac, Nerval, Hemingway, Cortázar, Borges, Cassady e Rimbaud. Nada de novo no frontispício. Nós, os novos, nunca! Já velhos novos e nunca. Febre nas livrarias — quem se livra? E o copo se enche e esvazia. A palavra é o pio do povo. E a festa parece que não acaba. A barca do Bukowski passou lotada, de novo. Perdi a passagem. Só de me embrenhar em mim mesmo já não acho saída, muito menos a entrada certa. Que dirá…
*Autor de Nem bobo Nem Nada, que você não leu, nem nunca vai ler, né?
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