Khlestakov, sozinho no quarto, aproveita para refletir. Afinal de contas, é nas horas difíceis que um homem deve ter força moral para avaliar a sua situação e crescer interiormente. “Mas que fome desgraçada!” Ele havia dado um passeio para ver se a monotonia da cidade e a visão do lixo nas ruas lhe tirariam o apetite. Mas não havia jeito. Se não fosse aquela maldita farra, teria dinheiro ao menos para voltar para casa.
“Onde é que errei, meu Deus.” E continuava a fazer sua corajosa autocrítica. Aquele capitão de infantaria tinha um estranho poder: era capaz de fazer o milagre da multiplicação dos ases. E ainda riu como um bárbaro, um verdadeiro animal, quando, em menos de 15 minutos, arrancou o couro de Khlestakov, praticamente o deixando pelado na sarjeta. Mesmo assim, o rapaz estava ávido por voltar a jogar com ele. Por azar, havia acabado justamente em Babuska. Uma cidadezinha chata, de gente que não quer vender fiado, um bando de canalhas que economiza até o tempo em que poderia ter alguma conversa interessante.
— É isso mesmo! Descobri! O meu grande defeito, o meu maior erro é ser um grande, um tremendo de um azarado.
(Trecho de O inspetor geral, de Nicolai Gógol, versão de Roberto Prado, editora FTD, SP