Todo dia é dia

comigo é no porrete

bebi
enchi a cara
cheguei a vazar
mas me redimi
perante a mim mesmo

brindei à vida
à essa incontinência de sentimentos
que contamina meus versos
e dá à minha poesia força,
resistência
e concretude

como os faróis de alexandria
eu, comedor de ranho,
lanço as luzes do porvir
sobre o passado
e sou todo revolução no presente

minha poesia forja o aço
assenta tijolos
pede esmolas
come o pão amanhecido
e assalta alguém na esquina

minha poesia
não está nas revistas
nem na boca de críticos
ou poetas de salão
ela é um simples
e sonoro não

NÃO
somente esta palavra tem o poder
é ela que faz a mudança
é ela que desmancha as teorias
é ela que faz
a efemeridade das coisas eternas

minha poesia
tem essa alma
o coração do avesso
ela é quem faz dos que sentem e pensam
os arautos dos novos tempos
símbolos dos que vão morrer nas ruas

vão morrer
porque há mais glória na morte de quem luta
por uma causa justa
do que em todas essas vidas vãs
que deixaram amolecer o cérebro
apodrecer os corações pela submissão
e perderam a alma na hipocrisia

não, essa gentalha
que faz do amor ação de genitálias
não vai colocar uma flor no meu túmulo
nenhum deles
antes, vão cuspir, escarrar
achando que me insultam
e que eu apanho
mas estarão, na verdade,
pura e tão somente,
alimentando o comedor de ranho.

Comedor de Ranho

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 50 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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