2. Medidas desmedidas

A vida passa e a gente a mede do jeito menos expressivo que há: relógios e calendários podem ser insuficientes para determinar diferentes períodos, fases e etapas de uma trajetória. Se se usar percepção nos atos e imaginação nos fatos, a cronometragem não precisa ser anual, mensal, semanal, diária ou horária. Assim:

Foi escritor durante um livro e meia dúzia de leitores.
Traiu maridos por nove guarda-roupas e um parapeito no vigésimo andar.
Trabalhou como torneiro-mecânico durante um mindinho e como fresador durante um antebraço.
Fez carreira política ao longo de três mandatos municipais, dois estaduais e uma CPI.
Bateu na mulher por sete filhos e uma revolta dos vizinhos.
Transou sem riscos por incontáveis camisinhas de qualidade e uma com falha do controle.
Sobreviveu desempregado durante oito planos econômicos, 31 protestos e um desacato à autoridade.
Trabalhou na construção civil ao longo de 403 andaimes e uma roldana com defeito.
Foi pedestre durante centenas de faixas de segurança e um motorista sem habilitação.
Se alimentou do lixo por muitos bairros ricos e um atirador anônimo.
Brincou no decorrer de uns quantos parques sossegados, várias pracinhas tranquilas e um pittbull sem focinheira.
Lecionou na periferia por 4.217 alunos esforçados e um canivete numa mochila.
Foi caixa de confiança ao longo de dez empresase uma ocasião propícia.

Etc.

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 50 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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