Os que têm ideias, os técnicos etc.

Para ideólogo, o que importa é a transformação da qual o mundo precisa

Nos anos 1960, para mim, não havia “técnicos”, só tecnocratas. Se um governo nomeasse um ministro por ele ser competente (com as credenciais de quem estudou e ponderou as questões-chave do seu ministério), todos gritaríamos contra o domínio da razão abstrata, que, pensávamos, indiferente ao sofrimento provocado, acabaria com a criatividade, as ideias, o desejo, a espontaneidade e a poesia.

Tínhamos algumas razões para desconfiar dos técnicos. Afinal, as duas guerras das quais éramos filhos foram guerras de expansão entre nações rivais ou guerras da ciência e da indústria militar contra o homem, por cima das nações? Qual a relação entre a vontade de conquista e a “necessidade” de usar as armas, uma vez que elas foram inventadas? Perguntávamos isso 20 anos antes de assistir a “O Exterminador do Futuro”.

De fato, éramos sobretudo neuróticos. Encarávamos os técnicos como substitutos dos pais no dia em que a gente pedia sorvete e eles respondiam que não havia dinheiro para sobremesa.

“Técnicos”, em suma, eram aqueles que tentavam nos explicar por que não dava para fazer o que a gente queria. Hoje, ele explicariam por que é necessária uma reforma previdenciária.

Nos os chamávamos de tecnocratas porque eles pareciam se servir de sua “técnica” e ciência para justificar seu poder.

Resumindo: nos anos 1960, a gente era sonhador e odiava os tecnocratas, que assassinavam nossos sonhos em nome da “realidade”.

Já nos próprios 1960, muitos sonhadores deixaram de ter apenas vontades, desejos e impulsos aparentemente generosos; eles começaram a ter ideias, de modo a poder contrapor uma visão do mundo à “realidade” invocada pelos tecnocratas.

Os sonhadores passaram assim a acreditar em ideias: eles se tornaram ideólogos. Ideólogo acredita na Bíblia e acha portanto que Darwin estava errado. Ou então ideólogo acredita em Marx e acha que o comunismo é inelutavelmente o fim da História. Dá na mesma: ideólogo é quem pensa a partir de sua ideologia, não a partir da realidade.

Como se forma um ideólogo? O ingrediente básico é a paranoia, que organiza o pensamento num sistema, dá sentido a tudo e, claro, designa os inimigos.

O sonhador podia ser inconstante e mutável como são os sonhos. No ideólogo, o que importa não são os quereres, mas é a transformação da qual “o mundo precisa”. O ideólogo tem certeza da necessidade de seu plano e do caminho para realizá-lo. E ele sempre tem razões “superiores” para menosprezar os custos de seu projeto: o bem de todos, os “princípios”, seu deus etc.

Ao longo dos anos 1980 (fim da Guerra Fria), não digo que a gente deixou de ser ideólogo, mas o fato é que, aos poucos, os tecnocratas voltaram a ser chamados de técnicos.

Ou seja, começamos a levar em conta os custos das ideias e a prestar atenção na realidade. Talvez esse seja um jeito de dizer que nos tornamos social-democratas. A virada não foi difícil, pois os que permaneceram ideólogos, em geral, levaram suas comunidades à falência.

Chegamos, aliás, nos 1990, a constatar que qualquer ideólogo é perigoso. É ótimo ter ideias sobre como levar sua vida, mas é péssimo acreditar que a sociedade inteira precise dessas ideias.

E hoje? A década na qual vivemos parece ter um novo carinho pelos ideólogos —e um novo desprezo pela competência dos técnicos.

No novo governo brasileiro, por exemplo, com a exceção da Fazenda, onde Guedes poderia não ser um ideólogo ultraliberal, mas um técnico (logo saberemos), vinga uma preferência pelos ideólogos: na Educação, no Itamaraty, no ministério misteriosamente dito da Mulher, Família e Direitos Humanos.

Como governantes, os que têm suas ideias (os ideólogos) são os mais apavorantes: a história mostra que eles não recuam diante de nada para a maior glória de seus pensamentos.

Os sonhadores também são péssimos para governar e se tornam ideólogos facilmente.

Restam os técnicos, que, como a gente receava, podem mesmo ser seduzidos por razões abstratas e perder de vista as exigências da vida concreta de todos em nome, sei lá, de um equilíbrio contável.

Conclusão? Gostaria que surgisse uma nova categoria: os empíricos, ou seja, os que pensam, a cada vez, a partir da realidade concreta, em toda sua complexidade.

Nota sobre a coluna passada. Agradeço aos leitores que me assinalaram que o seriado “Babylon Berlin” está disponível no Brasil, na Globoplay. Não percam!

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 50 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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