Como cortejar uma dama nos dias de hoje

Mais uma vez somos sobrecarregadas e quem reclama são os homens?

É curioso o saudosismo de alguns homens de um passado não vivido. Uma nostalgia delirante dos tempos em que as mulheres eram submissas e relacionar-se com elas, do ponto de vista masculino, seria mais fácil.

O discurso é absurdo em vários níveis, mas vamos no ater ao ponto de que, hoje em dia, para cortejar uma dama, impera a lei do mínimo esforço. Curtir um punhado de stories ou enviar um emoji de foguinho demanda um singelo movimento dos músculos tenares do dedo polegar que leva cerca de um segundo.

Depois de muita luta e alguns avanços, mulheres agora CEOs da própria vida e donas do próprio desejo têm mais um item a ser riscado em sua checklist: tomar a iniciativa. Ou seja, mais uma vez somos sobrecarregadas e quem reclama são os homens?

Diante da impossibilidade de argumentar com esse pessoal, me dei conta de que talvez fosse mais didático fazê-los entender na prática do que na teoria. Por isso, me lancei em um experimento social, sendo a mudança que não quero ver no mundo. Em outras palavras, passei a usar os aplicativos de pegação para flertar à moda antiga. Já ia sair no zero a zero de qualquer jeito, então não tinha nada a perder.

Disse a um dos meus matches que só me deitaria com ele se fosse cortejada. Ele copiou e colou alguns sonetos no chat, mas ainda não era o suficiente. Avisei que ele precisaria pedir a bênção de meu querido pai, oferecendo a ele algumas cabeças de gado. Mas o rapaz não possuía um rebanho e infelizmente não preenchia o pré-requisito.

Em outra ocasião, impus a condição de receber uma serenata. Meu match fez corpo mole só porque moro no vigésimo andar. Ainda me dei ao trabalho de apontar o caminho das pedras: era só fazer aulas de canto, aprender a tocar um instrumento, alugar um carro de som e arcar com a multa por desrespeitar a Lei do Silêncio. Obtive o silêncio como resposta.

Para outros dois matches, já botei todas as cartas sobre a mesa logo de cara. Falei que tinha outro pretendente na jogada e que eles precisariam duelar por mim. Coisa simples, usando a arma de fogo da preferência deles, e o que saísse com vida teria direito a ficar comigo. Tamanha foi minha surpresa ao descobrir que nenhum dos dois estava disposto a morrer por mim. Não se fazem mais homens como antigamente.

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 50 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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