Como seria sua morte na Folha?

Obituários no jornal são campanha para mulheres se manterem vivas

Nesta terça-feira, dia 8, o Brasil perdeu a atriz Aracy Balabanian, rainha do teatro e ícone do humor brasileiro. Dona de papéis inesquecíveis em filmes e novelas.

No entanto, para esta Folha, a vida de Aracy foi marcada por um aborto, por não se casar e por não ter filhos.

Sim, ela não teve maridos nem teve filhos. Quem iria trocar uma carreira maravilhosa e cheia de recompensas pela vida cruel que a maternidade —um trabalho exaustivo e solitário— e o casamento podem proporcionar a uma mulher?

Mas, segundo um dos destaques da cobertura de sua morte no jornal, não adianta abdicarmos da maternidade. Seremos lembradas pelos filhos que não tivemos.

Não é de hoje que grandes mulheres, ao morrer, são citadas por detalhes em vida, muitas vezes com toques de moralismo.

Rita Lee, após sua morte, foi citada por sua relação com “drogas e discos voadores”. Após lerem a nota, inúmeras mulheres desejaram embarcar em um óvni e fugir da Terra.

O mesmo aconteceu com Gloria Maria, lembrada por esconder a idade. Marília Mendonça, em seu obituário, foi “homenageada” pela luta com a balança.

A falta de sensibilidade com morte de mulheres não é exclusividade da Folha. A revista Veja resumiu Elis Regina, em sua capa, à “Tragédia da Cocaína”. Fez o mesmo com Cássia Eller, motivo pelo qual foi processada pela família.

O jornalista Tiago Leifert, em malabarismo intelectual, culpou a torcedora Gabriela Anelli por sua morte na porta do Allianz Parque.

A reação da imprensa com mortes de mulheres nos faz pensar que, se a nossa vida já é difícil, fica pior quando morremos.

Chegamos até a ter um momento existencial, pensando: “Se eu morrer, como serei lembrada pela imprensa?”.

Você fez uma pesquisa que salvou vidas? Não se preocupe. O destaque será: “Macumbeira, ela se casou cinco vezes”.

Ganhou um Oscar e conquistou o EGOT? Vai ganhar o título: “Abortista, tinha péssimo gosto para tatuagens”.

Até pensei no meu: “Mãe de merda, deixou o filho comer purpurina enquanto tomava vinho barato”.

Talvez seja parte de uma campanha para aumentar a expectativa de vida das mulheres. Nunca desejamos tanto nos manter vivas.

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 50 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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