Despertador

Olho para o despertador. Ele me olha de volta.

Lanço um olhar fulminante, implorando alguma condescendência.

Ele, irritadiço, praticamente espezinha com seu som de atravessar dimensões inteiras.

Se fosse um daqueles modelos antigos, com sinos trepidantes, bastaria bater nele com as mãos, empurrar para bem longe e sair remontando suas peças, mas somente depois de acordar de fato e de direito… Aqueles transferiam toda a crueldade da imposição desse dever de acordar para o inclemente relógio biológico. Não se trata desses, não.

Os modelos atuais, extensões dos braços do corpo humano na versatilidade da função cotidiana, debocham da nossa preguiça e do desânimo. No inverno, chegam a ser sádicos!

Os de hoje nos forçam a acordar e recobrar o mínimo de consciência para deslizar os dedos pela tela do aparelho, desbloquear o celular, clicar em dois ou três cantos diferentes, quase que pela indução de um piloto automático, e fazemos isso para nos certificarmos de que ele não vá mais azucrinar nosso descanso.

Após esse empenho todo, a pessoa está desperta. Não se pode chamar de feliz, mas, sim e exclusivamente, de pessoa acordada.

A metáfora com o que acontece na vida da gente não deixa de fazer sentido.

Durante muito tempo, somos dependentes, ainda que sem admitir, de dispositivos que nos conectem com a realidade ou tragam os pés de volta à superfície. Para levantar rotineiramente, tocar o barco e construir trajetórias em busca de sentidos. Imprimimos um ritmo próprio e nos tornamos autômatos nessa perseguição de significados.

Passado um certo tempo e com o acúmulo de inúmeros aprendizados, o ato de despertar e de se perceber ganha novas proporções. Chega sem anúncio estridente, ao som das nossas escolhas, exigindo apenas e tão somente um tanto de atenção e de cuidados para mergulhar fundo no interior, revisitar planos, acionar sensores, reconhecer-se na tela espelhada dos relacionamentos e interações para, por fim, identificar e preencher os vazios do caminho.

Acordamos para o que projetamos, no final das contas, conceber. Fruto de uma trajetória que se empreende integrada, mas fundamentalmente solitária de construção, sustentação e de legados. Sem transferir responsabilidades, culpas, padrões, medos, apegos e ambições que só a cada um pertence, acolhe ou se propõe a assumir. Penso que parte do segredo de acordar para a vida resida precisamente em dosar com sabedoria os próprios desafios e oportunidades. Pode ser que, amanhã, pense diferente. Porque uma outra parte disso é justamente não querer mais racionalizar nada que não brote espontaneamente das formulações dessa existência. Simplesmente viver, sentir e irradiar.

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 50 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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