A anatomia de um fracasso

Quem não coleciona insucessos é porque não viveu ou passou por aqui ignorando tudo que aparece de novo

A última coisa da qual me lembro foi ouvir meu nome sendo chamado. O que tenho na memória é um borrão de lembranças que misturam pânico, risos, a voz da minha interlocutora, constrangimento, aplausos. Durou meia hora para quem estava na plateia. Para mim vai durar para sempre.

O fracasso faz parte da vida. Quem não coleciona insucessos é porque não viveu ou passou por aqui escondido, encolhido, driblando mudanças e desafios, ignorando tudo que aparece de novo. Sou assim com o tal do TikTok. Abri uma conta há meses, me convenceram de que não precisava dançar, mas que eu deveria ficar de olho nas trends. Acho que o nome é esse. As tendências. Pega uma trend e faz igual. Fracassar no TikTok talvez até seja uma trend, você acaba viralizando e vira um sucesso. O sentido de fracasso nas redes sociais não é aquele com o qual estamos acostumados, quando não somos capazes de fazer o que é esperado por nós.

Preferia eu ter experimentado a derrota ao ter viralizado com uma dessas dancinhas ridículas que só deveriam ser permitidas para crianças que ainda não sabem escrever direito. Protagonizar um fiasco fazendo o que eu mais gosto não estava nos meus piores pesadelos. E quando duvidaram que eu poderia não dar conta, não dei. Falhei miseravelmente.

Era um evento pensado por mulheres, feito por mulheres e com umas 300 mulheres na plateia. Na audiência algumas das profissionais mais importante do país na área de comunicação. Pensando agora, talvez tenha sido isso. Eu não me intimido fácil. Do presidente ao Cidão do Zap, difícil me tirar do prumo. Mas diante de um batalhão de mulheres muito poderosas eu minguei.

Pense. Pensou? Talvez eu não tenha pensado. Minha tarefa nem de longe foi dos piores desafios que eu já tive. Eu deveria assumir meu lugar, fazer uma introdução e conduzir um papo informal com uma atriz de sucesso. Simples? Parecia. Era alguém com quem eu já havia trabalhado, tinha certa intimidade. Era servir de escada para ela brilhar. Quando subi ao palco veio a escuridão.

Eu me lembro de olhar o relógio que marcava o tempo. Quatorze minutos. Se hoje contarem que contei uma piada, coisa que não sei fazer, acredito. Mas não deve ter sido engraçado. A expressão da minha entrevistada também ficou grudada na memória. Ela me encarava com cara de quem não entedia o que se passava comigo. Não faço ideia. Não era o pânico com quem tenho intimidade há anos, que chega e descontrola as emoções. Quem convive com o pavor de ser invadido por uma crise sabe como ela chega. Conheço tão bem os sintomas que sei até o tempo que tenho para me alcançar o remédio, encontrar um canto em silêncio, acertar o ritmo da respiração e ficar numa posição fetal até que passe.

Não teve isso. Foi um apagão. Meu coração não saiu do ritmo. Minhas mãos não estavam suando. Tampouco percebi aquela sensação de morte chegando. Talvez fosse a própria morte. Quando o cronômetro marcou 22 minutos, era como se eu olhasse

Toda aquela cena de cima, descolada daquele cenário. Eu continuava a ouvir as risadas provocadas pela atriz, os aplausos. Tinha terminado. Do lado de fora, conhecidas diziam “foi maravilhoso”. A sororidade quando surge é uma coisa linda demais.

Passaram-se uns dez dias para que eu nomeasse o que tinha vivido: um retumbante fracasso. Contei para uma amiga. Ela desdenhou. Falei para outras pessoas. Todos acham que apenas estou sendo eu mesma: exagerada, dramática. Quando insisti no assunto, finalmente ouvi algo que não soasse como um tapinha nas costas: burnout. Cansaço excessivo, físico e mental, insônia, alteração no apetite, dificuldade de concentração, sentimento de derrota. Fracasso. Não sei se é burnout. Talvez eu só precise de uma semana de sono, uma agenda de trabalho menos caótica e de um país novo para viver. Talvez eu devesse gravar uma dancinha no TikTok mostrando como a vida da mulher é difícil.

Hoje, só queria poder subir naquele mesmo palco, olhar para as mesmas pessoas, abraçar a minha interlocutora, a pessoa que confiou aquele momento a mim e dizer me desculpe, não consigo, tô mal, tô cansada. Não me julguem. Me abracem.

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 50 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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