Panorama visto da Ilha do Desterro

foto-de-roberto-gomesFuga para o Egito, Ferdinand Demetz, 1902.

Ontem eu e meu irmão Cid passamos a tarde caminhando pelas ruas centrais de Floripa.

Cadê o Cine Ritz que estava aqui? Não está mais aqui. Nele assisti a estreia – barulhenta e escandalosa na época – de Rock around the clock (quem não estava lá não sabe do que se trata e nem adianta explicar aqui), filme em cujas projeções foram quebradas inúmeras poltronas nos cinemas Brasil afora.

E o Cine São José, no outro lado da quadra? Era a sala elegante, cheirosa, com menininhas em flor disparando sedução. O tempo levou. É agora uma coisa chamada Igreja Livre em Jesus. Ainda guarda o mesmo perfil de fachada, mas está visivelmente decadente.

Fugimos dali como se nos ameaçasse algum buraco negro e vamos em direção da igreja matriz para ver a escultura em madeira da Fuga para o Egito, do austríaco Ferdinand Demetz. Vale a pena. O pé da Virgem e o rosto de São José já justificariam a visita.

O diabo é que há barulheira em frente da igreja. Homens e mulheres vestindo camisetas vermelhas. Uniformes. Aliás, todos uniformes. Uns 350 manifestantes. Comeram o mesmo sanduíche e tomaram o mesmo refrigerante. Uns parecem cansados, outros olham para os lados como se estivessem procurando novidades. Um deles urra ao microfone. Bandeiras são agitadas.

Eu e meu irmão fugimos dali como quem foge de um pesadelo ou para o Egito.

Ele resume:

– É um protesto para defender a Dilma e criticar todas as medidas do governo Dilma.

Ah, agora entendi.

Não o sumiço dos cinemas, não a fuga para o Egito, mas o balanço neurastênico da presidente quando fala – num pezinho, noutro pezinho, pra lá, pra cá – as frases que começam e não terminam, os atropelos com a lógica e a linguagem.

É duro sobreviver no século XXI tendo o século XX diante de nossos olhos.

Vamos ver o que nos aguarda no dia 15, domingo. Em que século estaremos?

Roberto Gomes

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 50 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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