Shiva e uma taça de vinho

Capitulei. Se você vai pelas escurecidas e frufruleantes trevas terrêneas, pode se dar mal — me empurraram esse presságio. O subaquático entendimento de duas focas ou de dois pinguins, uma conversa de dois relógios digitais desorientados – assim resumiria meu desassossego. Preferi uma saída menos incrustada de dispêndio energético.

Fui direto às irradiações telúricas guimarães-rosenses.  Ele que chamou a vida de destino em estado impuro. Vá se entender com ele, que baixa éditos e convoca palavras esquivas. Elas baixam a cabeça e seguem a frase no rumo do matadouro. Não dão conta nunca do resultadão, do ostentortuoso rio que recheia as páginas e correlouco, sem regatear, até o fim-mar. Escachoar permanente de verbos, substantivos e adjetivos com espumas novas. Desconfiam-se mutuamente e se convivem gramatical-mente. Criam incerto terreno aquoso para leigos e desavisados.

Mas no meio de um rodamoinho salta e regouga um ‘amar é a gente querer se abraçar com um pássaro que voa’. E corto as asas do meu pássaro que quer voar para junto de Barbara Black, Ph.D. Morning as broken! Se eu pudesse ser mais corriqueiro, cotidiano, contíguo.

Declararam morte cerebral do meu coração. Ou seria morte coracional do meu cérebro? Importa é que os dias e as horas passam céleres. Queria mesmo achar o parágrafo perdido do meu texto. Levantar qual bandeira-guitarra e dar um golpe de fuego. Ele seria a boia de luz no mar revolto da espera para atrair Barbara, Ph.D. Não tenho forças para retirar o sufixo acadêmico do seu nome. O que não daria por um nome simples, sonante, coracionalmente sonante: Barbara. Me abraço ao pássaro da saudade que levanta voo doido dentro da minha casa.

Vai voando direto contra o vidro transparente. Tuf! Som seco de corpo emplumado contra o vidro. Algo de morte humana no som. E cai quietamente quieto em cima do sofá, asas derreadas: sofrendo. Não haveria Rosa que desse jeito verbal naquelas asas. Sofro junto, mas apenas por questão de estética.

Toca o telefone. Petulâncias do destino em estado burro. Não atendo

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 50 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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