Parágrafo sem travessão

Bateu no travessão. Ricochetou. Barbara Black, Ph. D., from Cambridge, insiste, no outro lado da linha, em afirmar que meu parágrafo tem significados profundos na atual conjuntura cultural. O sumiço dele, bem no meio de um texto, acredita ela, tem tudo a ver, pelo viés do falecido estruturalismo, com as falaciosas tendências que procuravam conteúdo psicológico em documentos da Segunda Guerra Mundial, com penosa negligência dos fatos circundantes que os circunstanciam. Se um olho pisca, o outro acompanha por simples questão de educação? Ou ambos estão presos à ‘realidade do piscar’? Comicamente consciente, retruquei.

Disse a Barbara que meu parágrafo apenas havia ido a uma espelunca de má reputação lá em Araucária. Ela me puxou as orelhas, pelo telefone, e falou com entusiasmo: You are amazing! I’m really surprise! Completou, em bom inglês, que eu mesmo, autor, não alcançava a importância do fato, embora fictício, dentro da realidade mais crua da atual dinâmica cultural mundial. Um parágrafo sumindo num texto, afirmou ela, adiciona um refrão obsedante ao que chamaríamos de ‘nova literatura’ ou ‘circunsliteratura’. Aquela que envolve o leitor nas entranhas da linguagem viajeira.

E o solta no meio do furacão da vida, sem lenço nem pára-quedas. Declinei do convite para fazer palestras na tão famosa universidade alegando estresse de terceiro grau. Além do que, o parágrafo em questão não apresenta sinais de recuperação depois do porre. Desliguei o telefone, educadamente, com um suave ‘Good bye, Miss Barbara!’

Logo a seguir, fui à procura do parágrafo para tirar satisfações. Não o encontrei. Aliás, não encontrei nem o próprio texto de onde ele fugiu. Fiquei imaginando que estudo tão significativo Barbara Black, Ph.D., irá fazer sobre isso. Como disse sabiamente Jaccques Ellul, Ph.D., ‘significados não-intencionais são ambíguos’.

*Rui Werneck de Capistrano Não é Bobo Nem nada

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 50 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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