Sorrisos

Li no jornal inglês The Guardian que está em exposição em Florença, na Itália, a única escultura feita por Leonardo da Vinci – sem contar o grande cavalo que o mestre esculpiu um dia, provavelmente só para mostrar que podia. A atribuição da escultura a Da Vinci não é unânime: está, mesmo, havendo uma briga feia entre experts e acadêmicos sobre sua autoria: os curadores da exposição em Florença, e outros entusiastas da descoberta, contra os céticos. Os que acreditam que a singela escultura da Virgem com Jesus no colo seja do Leonardo têm até uma biografia pronta da obra, realizada, segundo eles, quando o artista tinha 19 ou 20 anos e ainda era um pupilo no atelier do florentino Andrea Del Verrocchio.

Na escultura de Leonardo da Vinci ou de quem quer que seja, Jesus olha para Maria, Maria olha para o filho. Os dois estão sorrindo. Nada mais raro na iconografia religiosa do século 15 do que uma Virgem Maria e um Menino Jesus sorrindo. Os dois sorrindo um para o outro, então, beirava o escândalo. Que cumplicidade era aquela entre mãe e filho que não incluía o resto do mundo, que era um pacto só deles, um carinhoso trato fechado? E sorrindo por que, se aquela história acabava tão mal, com tanto sofrimento e sangue?

Se nada mais na escultura pode ser atribuído, sem discussão, a Leonardo da Vinci, os sorrisos não deixam dúvidas. O sorriso de Maria é precursor dos outros sorrisos intrigantes espalhados por Da Vinci pela sua obra, culminando no famoso sorriso da Monalisa, exposto no Louvre atrás de camadas de japoneses. Para os 500 anos da morte de Da Vinci, o Louvre prepara uma exposição para este ano que também conterá controvérsias, como um desenho caricato da Monalisa chamada Mona Vanna, ou Mona Vaidosa, que pode ou não pode ser uma autogozação do próprio Da Vinci.

Os sorrisos do Da Vinci são frequentemente chamados de “enigmáticos”. Talvez porque não tenham “mensagens” a serem procuradas, ou código a serem decifrados, além do prazer da grande arte. Se bem que já ouvi atribuírem o plácido sorriso da Monalisa a um desconforto gástrico.

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Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 50 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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