Veja-se!

Duas ou Três Coisas Que Eu Sei Dela (Deux ou Trois Choses Que Je Sais d’Elle). Ela é Paris. Ela poderia ser Tóquio, São Paulo, Nova Iorque,… Ela é Juliette e procura se comunicar com o mundo. Duas ou três coisas que sei dela” é o tipo de filme cuja história principal será vinculada aos comentários perpetrados por Godard. É talvez o filme onde pese com maior intensidade a anti-grife Godard, posto que sua sobrevivência passa por esses conceitos e observações que ele propõe sobre o homem na pólis. Quando falo sobrevivência, não acredito na morte deste filme, mas na morte da preguiça e do comodismo que embebem as críticas fáceis à Godard, seu método e seu pensamento. Pois existem críticas embasadas à maneira que ele encontrou de dizer ‘coisas’ através de filmes…

Um filme existencialista? Não sei. Godard parece querer ir além, dar conta de outras questões. Viver a cidade, ele bem observa, é ter que falar mais alto. As conversas de 2 ou 3 coisas… são sobrepostas dos ruídos emitidos pela pólis, o esporro da pólis: obras, aviões, pinball,…. A cidade como corpo estratificado, reveladora de estratagemas, conexões, onde o bicho-homem se debate, contido pela solidão e pelo medo. A cidade que cresce: como cresce? Por que e pelas mãos de quem cresce? Godard estabelece as mil ligações (mil platôs?) entre o social, o geográfico, o político e a realidade subjetiva dos indivíduos. Realidade esta que pesa na balança de modo irregular: ora se esvanece na solidão, ora na mediocridade do cotidiano.

Mas Godard não se contenta em proferir, mas também suscitar comentários. Ele “chama” o espectador para questionar sua própria condição perante a tela, trabalhando a partir de contrapontos entre texto e imagem e até mesmo contrapontos “internos”, isto é, entre o próprio texto e própria imagem. Numa cena espetacular ele opera de modo irrepreensível: fulana toma café num bar, seu pensamento voa numa teia de significados cotidianos, ela paquera entre os jogos de olhares, ela foge dos olhares, ela estremece; a voz chega, a voz postula poeticamente sobre o espaço e tranpõe certa incomunicabilidade para o cosmos, para dar conta deste vazio e de repente… a solidão de fulana rima com a destruição do universo…a partir do close de um café! A solidão em dois tempos! Absolutamente genial!

Bernardo Oliveira

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 50 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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