Pau no Leminski

© Tiago Recchia

Conheci o Paulo Leminski em 1963. Eu, aluno do curso Abreu, me preparava para o vestibular de Direito, ele, professor de história e do que chamavam de cultura geral. Foi impressionante. A figura de cabe­los longos, voz um pouco rouca e uma retórica indestrutível desfiava a história da humanidade e questionava a cultura estabelecida e os modelos literários que considerava gastos. Beirava os 20 anos e parecia ter lido tudo, de Platão a Joyce, e no original. No intervalo entre as aulas, dissolvia nossas dúvidas de estudantes de latim. O vestibular de Direito, nessa época, exigia português, história, latim e outra língua. Ele parecia saber tudo o que se precisava saber para as quatro provas.

Minha vocação de jurista dissolveu-se como tantas outras vocações definitivas que tive. Minha vida encaminhou-se na militância política e minhas ideias sobre arte e literatura estiveram engessadas pelos dogmas da época. Leminski era um ruído questionador. Presente em todos os debates. Das ideias políticas à literatura. Do cinema à música popular. E eu creio que essa foi sua contribuição permanente à cidade e a todos nós. Seu permanente comportamento transgressor, inconformista, iconoclasta, não permitia o conforto do consensual. Sua avidez pelo conhecimento o levou a todas as experiências e a todos os territórios, inclusive aos mais destruidores.

Eu o reencontrei quando ele passava pelo pior momento, mesmo assim lúcido e desafiante em seu transe suicida. Mais que isso, o re­encontrei através da obra. Li o Catatau, a obra mais instigante já es­crita nesta área do planeta. E me pareceu ver ali vertido, em exercício de ficção e linguagem, todo o conhecimento que ele acumulou desde sempre, em incrível monólogo onírico de René Descartes em visita a Pernambuco no período holandês. O espanto do filósofo diante da natureza dos trópicos e dos costumes nativos. A falência da razão cartesiana. “Duvido se existo, quem sou eu se esse tamanduá existe?”, pergunta o filósofo. Reli o Catatau com Décio Pignatari, que comandou a preparação de sua edição pela Travessa dos Editores. Foi novo apren­dizado. Durante meses trocamos ideias sobre as fontes e as invenções de Leminski, para perceber toda a extensão de seu processo criativo e de seu conhecimento.

É, para mim, a sua grande obra. Não creio que a poesia de Leminski tenha alcançado o grau de complexidade e tensão criativa do Catatau. Ela passeia por outro terreno, da cultura pop, o que não me impede de gostar e muito de poemas e letras que criou, onde se percebe o mesmo espírito transgressor. Nada que se compare ao desafio de inteligência que o romance-ideia propõe e que o transforma em obra seminal. Cer­tamente de digestão difícil e pouco compreensível para quem a aborda com ânimo de leitor de .narrativas horizontais ou para quem simples­mente não lê e não gosta porque sabe que o Catatau é um exercício que constrange a mediania. Para estes, o gênio de Leminski criou o mote que ele fez inscrever nos muros da cidade: “Pau no Leminski”

Fabio Campana|Revista Ideias 154|Agosto|Ano XI -11 de agosto| 2014

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O que é que os outros vão dizer?

Cresci à sombra dessa frase-ameaça, símbolo / síntese/ totem da nossa (curitibana) pudicícia, timidez, excesso de respeito pela opinião alheia. Os outros são uma loucura. Tem um que. Tem um outro. Tem um que outro. E tem cada outro que vou te contar. Outro é o tipo de negócio que nunca falta. Para cada um que sim, tem um outro que não. E talvez um outro.

A opinião dos outros já me tirou o apetite. Um outro não me deixou dormir. Teve certas camisas que nunca usei por causa dos outros. Outro caso são as outras. A outra. Eu sou a outra na vida dele. O fato é que não se pode viver sem essa estranha companhia: os outros. Quem são os outros? Metafísica pergunta que Universidade alguma responde.

Não é qualquer um que é o outro. Basta um pouco de intimidade, e lá se vai o outro, transformado em íntimo, a pior modalidade de outro que se pode imaginar. Nos anos 60, a intelectualidade curitibana era toda sartreana. Até os marxistas eram, secretamente, acendendo, em público, uma vela a Marx e, em casa, no recesso do lar, um círio (Jamil Snege acendia um sírio) ao casal Sartre- Simone.

O que mais fazer numa cidade sem portas, nem janelas? Extrapolo. Tudo o que eu queria dizer é que, com Sartre, aprendemos a escrever outro com maiúscula. O Outro. Aí o caso é mais sério. O outro, virando o Outro, transformava-se numa espécie de monstro da família de Drácula, Nosferatu, Frankenstein, Monstro da Lagoa Negra, Fuscão Preto, INPS, Abominável Homem das Neves. Aprendemos, ainda, a outridade, o outrimento, tudo modalidades de manifestações desse prestigioso portento.

Alguns exageraram nessa paixão pelo outro. Um dia, acordaram, foram ao espelho. E lá estava o Outro refletido no reflexivo vidro do banheiro. E fizeram a barba do Outro mesmo. Hoje os tempos são outros. Outros os hábitos, outras as preocupações. Mas, vez por outra, ainda me lembro daquele monstro com o carinho com que lembramos das visagens e assombrações da infância. E só. Hoje, pra mim, o outro entra por um ouvido. E sai por outro.

Paulo Leminski. Fim de Semana – suplemento de O Estado do Paraná – edição de 12 de novembro de 1982

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Leminski by Josely Viana Batista

leminski-70-anos-soldaHospedado em minha casa em Curitiba, no final dos anos 80 (nesta época ele morava em São Paulo, na casa da Fortuna), Leminski ficou amigo do chinês de uma pastelaria embaixo do prédio, com quem conversava de todas as maneiras ao sair para comprar pão.

Tentava falar com o chinês, que viera de Cantão, em mandarim, e normalmente chegava atrasado, com o pacote de pão amassado debaixo do braço, desistindo de tomar café conosco, pois já ficara freguês de um engordurado bolinho de carne da pastelaria. Foi por esses tempos que discutimos muito sobre cultura hispano-americana, literatura e revolução — a propósito de uma tradução de Guillermo Cabrera Infante que eu estava fazendo para a Cia. das Letras, e que ele gostava de ler durante as tardes. Ele estava um pouco over, saía todas as noites e nem víamos quando voltava. Mesmo arriscando ouvir alguma desconversa aborrecida dele, disse-lhe que achava que ele precisava parar um pouco, talvez ir para a chácara de algum amigo, ficar longe da cidade, voltar a escrever, enfim, tentar frear aquela vertigem suicida.

Surprendentemente, ele não fez graça nem torceu o nariz fingindo não ter ouvido. Depois de um tempo em silêncio, disse, com uma calma aterradora, que se manteria conscientemente nesse mesmo rumo, com “a dignidade suprema de um navio perdendo a rota”, pois assim se sentia mais vivo, mais criativo, e que a lucidez da sobriedade agora tomaria o mundo opaco para ele.

Além dos traços mais evidentes de sua personalidade, como a transbordante criatividade e a generosidade (típica, aliás, dos grandes artistas), lembro-me de seu bom humor e de uma paradoxal fragilidade, revelados através de uma poderosa e romântica imaginação poética, que lembra a “vivência oblíqua pela imagem” de que falava Lezama Lima, e de uma atitude muito particular que ele assumia nos momentos mais adversos.

Josely Vianna Baptista.
Poeta e tradutora, fazia parte da equipe do jornal Nicolau.

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Não fosse Kurt e era um conto

paulo-leminski-dico-kremer-(1)© Dico Kremer

Difícil associar Paulo Leminski ao Concurso Nacional de Contos promovido pelo Governo do Paraná, por intermédio da Fundepar, em fins da década de 1960. Foi esse o maior prêmio literário e o mais prestigiado concurso que a literatura brasileira conheceu a partir de 1968, quando Dalton Trevisan foi consagrado seu primeiro vencedor, enquanto Curitiba foi oficializada como a capital nacional do conto.

Em outra ponta, o jovem Paulo Leminski, recém-saído do Grupo Áporo, liderava manifestações de um ardor quase comparável às atuais rebeldias contra a Copa do Mundo, isso se o mundo fosse uma grande biblioteca.

Eram faixas denunciando o conto como o “Soneto do século XX” ou ironizando: “Conto só se for a cores”, desfiles interrompendo as palestras que acompanhavam o concurso, entrevistas furiosas, brados de ordem, clamores em defesa da vanguarda.

Bom de mídia, o polaco fez o que pôde para ser preso em nome da literatura. Afinal eram os anos de chumbo, e o conto, oficialmente consagrado, tornava-se uma algema para a literatura.

Sintomático que os protestos leminskianos tenham chegado ao clímax em 1969, durante o II Concurso Nacional de Contos, quando o vencedor foi Rubem Fonseca.

Esgotada a febre de protestos, o fabbro foi para a oficina e daí em diante passou a ser visto circulando pelas ruas e bares com aqueles minúsculos papéis com frases porte-manteau carimbadas com o KTT.

Quase seis anos de alquimia, recortes, desenhos, montagens, anotações, tudo marcado com o indefectível KTT. Três preciosos cadernos de esquemas, mapas e busca de caminhos, entrevistas (originais não encontrados) para, finalmente, anunciar que, no alto do Pico do Marumbi, colocaria o ponto final em sua obra máxima, a mais cara, a mais buscada: Catatau, lançada em 1975, com todo o direito de é pater.

Organizado em sua desorganização, Leminski guardava tudo. Não tivesse ele feito uma convocação, em uma de suas últimas entrevistas, para que eu tratasse de sua obra como havia cuidado daquela dos simbolistas, e não teria saído em busca de seus perdidos do incêndio, pois à sua maneira, a biblioteca de um escritor é sempre um Templo das Musas.

E saí e busquei para encontrar em meio a livros raros e caros, manuscritos, obras inéditas (La vie em close, Metaformose, ambas com proposta de capas, esparsos que a família reuniu, editou e vem divulgando), cartas, recortes, entrevistas, bilhetes, sem contar a marginália, que por si só daria uma tese.

Mas, sem dúvida, o que me seduziu foi o Laboratório de Catatau, ainda inédito, e, em meio a artigos, entrevistas e recortes de jornal, a carta de Léo Gilson Ribeiro, na qualidade de integrante do júri do II Concurso Nacional de Contos do ano de 1969.

Na carta, recebida cerca de três anos após a realização do concurso, a revelação do equívoco. Leminski deixara de ganhar o II Concurso Nacional de Contos (1969) ou Rubem Fonseca fora o vencedor porque o júri confundira Kung (Leminski) com um certo Kurt.

A partir daí ficam interrogações: por que Leminski nunca divulgou essa carta? Por que não guardou o conto (de título ainda desconhecido) que inscrevera no concurso?

Esta última questão procurei responder indo à Biblioteca Pública do Paraná, que ainda guardava em seus depósitos todos os contos inscritos nos concursos da Fundepar, organizados por ano de realização. Eram milhares. Assim passei semanas em busca do texto de Kung e localizei Descartes com lentes (publicado em 1993, iniciando a Coleção Buquinista).

Muito mais do que a gênese de Catatau, um texto que teria mudado o rumo do conto brasileiro tão soneto que era com um choque de “ego-trip” na linguagem, marca da proposta do texto de Leminski.

Lá estava, sob uma árvore folhuda, o Cartésius, o experto em dioptria, com suas lentes e lunetas, observando os bichos no zoo, as formas vegetais e as naus aportadas em Vrijburg.

Lá estava a prosa nada cartesiana, Descartes ignorando Descartes e por que não aberto para “outros em mim que não sei”. Por isso, labirinto, por isso imprevisto para outra viagem, mais longa, aquela de muitos cadernos, de muitos KTTs, aquela da lente invertida que chega no Catatau

O conto do Kurt, o que não estava bêbado, esse talvez certinho como tantos- todos, foi considerado medíocre e assim confundido derrotou Leminski.

Kung-Leminski era Artyshewsky bêbado extravagante, ninguém entenderia. Teriam que esperar.  Que dizer do Catatau? História de uma espera.

Sobre o concurso, sobre o conto, sobre o prêmio, Dalton– sempre impecável a polir seus textos –pôde comprar, entre outras coisas, um prosaico Fusca que o acompanhou por muitos anos. Kung-Leminski trancou-se no laboratório e, em meio a experimentos, transformou-se em Occam, o monstro semiótico que habita as profundezas dos lagos e rios subterrâneos da Curitiba-Mundo, o personagem dessa “leminskiada barrocodélica” que é Catatau.

Cassiana Lícia de Lacerda – Revista Ideias|Agosto 2014|nº 154|Travessa dos Editores

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Denegrindo a imagem?

Biografia não autorizada pela família. Editora Nossa Cultura, Toninho Vaz. © Américo Vermelho. Criação do cartunista que vos digita.

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30 anos sem Paulo Leminski

múltiplo-leminski© Gustavo Marchesine

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Fotojornalista registra tamanduá cego em queimada na Amazônia

© Aranquém Alcântara – 23|8|2019

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Polaco lokopaka

Retícula sobre foto de Macaxeira

Foi aí pelo inverno de 69 que a gente começou a se tratar de louco. E a enlouquecer para uma civilização que já era. Induced madness, loucura provocada, o furor como obra. No país, portas, janelas e paredes se fecham. Ultra-Direita no poder, a assassina Direita das Américas. A Inquisição computarizada arranca a verdade ensangüentada de guerrilheiros, subversivos e suspeitos, os que pegavam no pau de fogo e os que mexiam com as idéias que levam as pessoas a pegar no pau de fogo. Até segunda ordem: desativar o relógio da História, a bomba relógio da história do Brasil. Toda oposição, cortada a ferro em brasa. Todo poder à censura. Sístole. E a gente, alguns milhares de cabeludos e desbundados, a nova geração da classe média urbana, tatus, toupeiras, avestruzes, descobria a aventura interna. Na droga, uma desistência, que é repúdio, nojo,vômito.O projeto rondon da mente. As “mind guerrillas”, de Lennon. No mundo, a diástole.

Uma onda da explosão da guerra do Vietnã no coração da Metrópole, em outra galáxia, chega até nós, no terceiro mundo, eco de um eco, spagheti-western. Embaixo, no papel de alicerce, a Casagrande&SenzaIa, nosso super-ego de sempre. No cérebro, a fúria de uma tormenta química. O roque, o som pauleira, Woodstock. Aquário, o milenarismo da Nova Era. As utopias libertárias juvenis, rebentos do individualismo extremo a que chegou o homem ocidental. Cápsulas do tempo dos anos 60. O reverdecer da América. América, aqui. como sempre, os Estados Unidos. A droga fode com o tempo contábil, o tempo loteado, diagramado, avaliado em dinheiro pela burguesia que troca trabalho por salário, tempo do incenso contra o lógico tempo do relógio, fascista, leviatânico, totalitário. O Complexo de Peter Pan, may you stay forever young. Consciência III. Paz e amor: quietismo e porralouquice hippie. Ahimsa: pacifismo à Ia Gândhi, não violência.

 Nirvanas escapistas, hashish e Ravi Shankar. Naturismo ingênuo, salvar as árvores e os animais selvagens, anti-capitalismo romântico. Começa a consciência ecológica. A pele, o corpo, o sensorial. A tatuagem. Flores nos cabelos. Reflexos da divino maravilhosa rebelião da juventude bem alimentada e liberalmente educada da Califórnia e de Londres, flor da lama de um mundo em adiantado estado de putrefação, barriga cheia, cabeça feita. As elitesjovens pegam Latinoamérica, Cuba, Chile, montoneros, tupamaros, todas as estações e temperaturas políticas, do Sul dos Estados Unidos à Terra do Fogo, via literatura e via livro, via música popular e via revistas, o sonho insurrecional, socialista utópico das Latinaméricas, passa, de contrabando, por entre o fogo de barragem de lixo cultural, que as multinacionais despejam, do alto de seus satélites repetidores, dentro dos cérebros das crianças da periferia do mundo civilizado. Jara, Atahualpa Yupanqui, Machu Pichu, pôster de Jimmi Hendrix e Guevara, cabeludos como os Beatles, barbudos como Fidel.

O LSD abre as portas da percepção para novas fronteiras do imaginário. Descoberta das culturas desprezadas pela civilização ocidental. Pele-vermelhas, índios mexicanos, negros, ciganos, xingu. Nem Washington nem Moscou. Tibet. Índia. Nepal. Japão. Jamaica. Bahia. Drop City. Reciclagem do lixo cultural. Astrologia. Tarot. Ocultismo. Uma segunda religiosidade reinventa os deuses que a burguesia matou, com seu materialismo míope. Misticismo, orientalismo, cultos kitsch: anti-positivismo. Gurus, koans, senseis, transmissão oral de um saber vital. A imaginação no poder. Do your own thing, fique na tua. Permissividade anárquica. Contra o horário. O salário. O emprego. A carreira. A gravata. O cabelo curto. O serviço militar. A caretice. Nos interstícios da sociedade de consumo, nas frestas da abundância das grandes cidades do Ocidente, novo tipo de homem, nômade, captor, tenta reinventar o trabalho, a sobrevivência, ávida. Cultura pop: a pequena Revolução dos Costumes, cosmopolita, da classe-média ocidental, circo para os que já estão empanturrados de pão. Uma revolução nas super-estruturas. Mas quando as super estão mais fortes. Depois da ocidentalização do Oriente, a orientalização do Ocidente: penetração de valores asiáticos e negros, desprezados pela civilização branca-cristã, nas elites intelectuais, hinduismo, yoga, macrobiótica, zen, acupuntura, artes marciais, I-ching, candomblé, meditação transcedental, soul & som, gurus, koans, toques, transmissão oral de boca a boca. Convívio e comunicação, restabelecer o contacto em profundidade entre as pessoas, destruído pela urbanização bárbara e pela competição capitalista. Sociedade alternativa. Contracultura. Contestação. A perspectiva da hecatombe nuclear.

Big Brother pintando. Protesto da vida contra o artificial e o laboratório, o absurdo abstrato da existência sob o capitalismo hiper-urbano, post-industrial: make love, not war. O pensamento mágico, analógico, sobrevive na margem, nas margens. As melhores coisas da vida são grátis. Não pode mudar o mundo? Mude você. A escolha lumpen: o lado do crime, a marginalidade. Cair fora, a estrada, a carona: até a Terra Prometida dos festivais de roque ao ar livre, days of music and understanding. A hostilidade contra as leis, as polícias e as barreiras. There’s no countries. Imagine. Acabaram os países. Power to the people. Capitalistas e operários, otários por trabalhar no horário, acreditar em guardar dinheiro, querer carro, acreditar em progresso, casar com mulher virgem, na igreja e no cartório, deixando para amanhã as boas coisas da vida, quando o melhor do mundo é aqui e agora. Hedonismo, o homem lúcido curte e brinca. O trabalho, sob o capital, é repressivo. Massifica as pessoas, números no interior das grandes organizações. Engole nossas forças, atrofiando o livre desenvolvimento das energias criativas.

A disciplina exigida pelo trabalho, dentro do sistema, abstratiza você roubando tempo, corpo, prazer e percepção. School is out forever, grita a contracultura, a escola acabou pra sempre, e soa engraçado num país que ainda não teve escola para todos. Colonizados até os ossos. O colonizado importando tudo – até a revolta contra a metrópole.

Paulo Leminski (do jornal Raposa, editado por Miran, final de 1980).

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O Bandido Que Sabia Latim

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Bolsonaro e a arte de ser desagradável

Logo que Jair Bolsonaro começou a ficar mais famoso, a partir de vídeos de suas grotescas performances espalhados pela internet, o que mais me impressionou foi a sua estratégia de marketing que basicamente consistia em ser desagradável. Era a continuidade do que ele vinha fazendo na carreira de deputado do baixo clero e que incrivelmente deu certo também na eleição para presidente.

Bem, até aí tudo bem, pode-se dizer com o peso do desconsolo de ter de passar a vida encarando esta realidade brasileira cada vez mais torta. Mas acontece que um sujeito asqueroso pode até se dar bem do ponto de vista eleitoral. O problema é que depois, com certeza, a continuidade da grosseria vai atrapalhar bastante na função para a qual foi eleito.

Pois é o que temos agora no Brasil. Bolsonaro desconhece essa necessidade evolutiva da política. Sua grosseria ensaiada para ganhar votos nem é novidade na política. A diferença é que até aparecer este presidente sem noção, as barbaridades eram abandonadas no palanque. Nas prefeituras, nos governos estaduais e até na presidência da República, mesmo os grandes canalhas se enquadravam na chamada liturgia do cargo, com a contenção da má índole ou da encenação eleitoral dentro de uma razoável adequação às formalidades públicas.

A razão de tal transformação é muito simples. É que levando para o mandato a brigaiada e os insultos de campanha fica impossível ser efetivo no trabalho, seja no Legislativo ou no Executivo. Isso foi demonstrado na própria carreira de Bolsonaro, que manteve durante três décadas o mesmo caráter de arrumador de confusão, o que serviu para que tivesse uma reeleição atrás da outra e até elegesse também os filhos, porém mantendo-se na baixa qualidade política do baixo clero da Câmara, onde era uma figura isolada, até o país virar de cabeça para baixo e ele se dar bem.

E agora o problema é todo nosso. Os brasileiros estão vendo o efeito disso no comando de um país que precisava de uma remexida geral em todos os setores, mas que infelizmente não sai do lugar, ainda atolado em problemas criados pelos governos anteriores do PT e que acabam sendo agravados por esta insistência de Bolsonaro em ser desagradável. O Brasil tem um presidente que parece começar o dia reunindo a equipe para estudar situações em que ele pode intervir piorando o que já não está bom. E o pior é que no final da jornada ele não só alcança como na maioria das vezes ainda dobra a meta.

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Jair Simão Bacamarte

DILMA foi impichada por causa das pedaladas fiscais. Entre as pedaladas fiscais e as queimadas na Amazônia a diferença está na extensão da gravidade. Nos dois casos houve descumprimento da lei pelo presidente da República. Dilma deixou de cumprir regras financeiras para agradar seu eleitorado. Bolsonaro deixa de aplicar normas de segurança para conter as queimadas na Amazônia.

Bolsonaro omite-se no combate para atender seu eleitorado, o agronegócio, a exploração de minérios e a grilagem de terra dos índios. Com a agravante de estimular desmatamento e queimadas com seu discurso de negação dos problemas ambientais e de ódio aos estudiosos do ambiente, a quem carrega em acusações ideológicas. O impiche que derrubou Dilma tem maior força para derrubar Bolsonaro.

Não vai dar impiche, pena, porque o presidente é inimputável, como Adélio Bispo, porque desliza no teflon, como Lula, porque as zelite não querem passar vergonha mais uma vez. A continuar como está, Bolsonaro termina o mandato em camisa de força, trancado pelos generais de pijama em quarto acolchoado no Alvorada, de onde sairá para atos oficiais no colo de um deles, o ministro ventríloquo.

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Coisas ridículas para roteiros

Tinha algumas pérolas quase indecifráveis, como ‘o quadro do peito que tomba’

Encontrei ontem, fazendo uma limpa no computador, um arquivo com o título: “Coisas ridículas para roteiros”.

Tinha algumas pérolas quase indecifráveis, como “o quadro do peito que tomba”. Logo que saí da casa da minha mãe e fui morar sozinha, pedi a uma amiga artista plástica que pintasse um quadro meu… peladona. E para que eu queria isso? Não faço a menor ideia.

O zelador faz-tudo pendurou a obra em cima da cama, notando que o quadro se inclinava para a esquerda. Ela desenhou o seio esquerdo bem maior que o direito, e o quadro —mistérios da arte— pendia para o lado da teta maior. Eu tenho muita vergonha de lembrar tudo o que eu fiz antes dos 30 anos.

Estava lá também anotada a minha paixão avassaladora por um escritor carioca que havia lançado um livro repleto de sexo, sobre a procura da mulher idealizada.

Eu devorei o texto e fui sedenta procurar pelo rosto por trás daquelas palavras tão provocativas. Cheguei ao Orkut do autor e não pude acreditar. Alto, de cabelos cacheados e olhos claros penetrantes. Passei seis meses mandando mensagens eróticas para o cara, até uma amiga me falar: “Não, doida! Essa foto é do Bob Dylan bem novinho”.

Um dia, na rua da escola, um motoqueiro se acidentou e ficamos todos impressionados com aquele jovem estendido no chão, esperando a ambulância. Parecia descaso. Foi quando o professor Claudio, de biologia, abdicou da lição sobre mitocôndrias para nos explicar a importância de jamais mexer no corpo de um acidentado.

Pois bem, no fim de semana seguinte, eu caí da bicicleta e fiquei totalmente imóvel, dura, sem abrir os olhos nem responder à minha mãe que gritava: “Pelo amor de Deus, fala comigo!”. Chamaram uma ambulância, e eu só tinha ralado o joelho.

Aos 16, eu namorava um moço que já tinha outra namorada e, com medo que ele fosse para a casa dela, o tranquei em meu quarto.

Ele começou a ficar muito nervoso (eu era menor de idade!) e deu vontade de fazer cocô. No meio da fuga até o lavabo, minha mãe acordou para seu xixizinho da madrugada e ele se escondeu entre os meus brinquedos, ao lado do Alf, o ETeimoso.

No susto, minha mãe, que estava dormindo sem calcinha, caiu de costas sobre o sofá, gritando: “Eu vou chamar a polícia!”, e ele então se ajoelhou de frente para a não calcinha dela, piorando por demais a situação, e implorou que ela não fizesse isso.

“Doce avariado” era sobre um paquera de internet que pegou mais de 14 horas de ônibus vindo do interior do Espírito Santo para me pedir em namoro e me trazer um doce caseiro feito pela avó.

Quando me viu, disse que me achou diferente da foto e que agora não sabia o que fazer com a compota da vovó, que estragaria em 12 horas. Ficou puto e preferiu jogar a iguaria fora a ter que me dar.

Ainda sobre minhas aventuras amorosas, me lembrei de quando saí com um estudante de filosofia sem saber que seu principal hobby, em vez da pesca, era o “machismo-tiozinho”.

Ao ver em seu carro o adesivo “Olha esse filezão que eu pesquei”, desisti do cinema.

O “kit putaria santo sudário” falava da vez que fui parada no aeroporto de Turim levando metade de uma sex shop (era um namoro recente com um italiano), e, quando me perguntaram o que eu estava fazendo naquela cidade, respondi que tinha ido conhecer o santo sudário.

Estou há mais de 24 horas tentando lembrar, sem sucesso, o que querem dizer as anotações “lhama amigo do Kiko com dengue”, “piroca-tecnia” e “umbanda sem cueca”. A idade traz muitos esquecimentos. Ainda bem.

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Faça propaganda e não reclame

Most Offensive, Banned and Rejected Ads. Bacardi – Canada – Banned as it “objectified and demeaned women” (ASC).

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Planeta Fogo

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Faça propaganda e não reclame

atormenta-2

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Poluicéia Desvairada!

scaniavasoScania Vaso. Em alguma quebrada da Vila Sônia.  © Lee Swain

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João Rubinato & Elis Regina Carvalho Costa


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