Era da Mentira

Temos que conhecer de forma objetiva as estratégias dessa velha arte

Nos últimos dias temos escutado muitas mentiras. Tem de todo tipo: mentira deslavada, ambiguidade intencional, retirada de contexto, projeção, inversão. Como são muitas e concorrentes, disputam hegemonia. Um nome educado para isso é “disputa de narrativas”, no grande mercado simbólico que rege o mundo. Ganha quem souber mentir mais tempo para mais gente.

Roubar no jogo é o novo jogo. Alterar os dados, as imagens, os fatos? Pode. Ocultar informações? Pode. Invadir domínios públicos e privados? Pode. Roubar dados? Deve. Afinal, guerra é guerra e lucro é lucro. Lentamente naturalizamos o uso de tais estratégias.

Já adianto o final da coluna: precisamos criar um campo específico do saber chamado mentirologia. Temos que conhecer de forma objetiva as estratégias dessa velha arte, assim como as estruturas subjetivas aí atreladas. Vejamos alguns cases recentes.

O Intelectual. Ele queria nos mostrar que vítimas também são algozes, retomando o intrincado problema da dominação. Foi soltando um fio de exemplos justapostos para demonstrar sua tese, usando invariavelmente a metodologia metonímica de tomar a parte pelo todo (uma parte mínima, minúscula). Um dos seus argumentos: vejam Abdias, uma referência do movimento negro no Brasil e no mundo, na verdade fez parte de um movimento autoritário e, por que não dizer, fascista. Abdias viveu quase um século, fazendo de sua vida uma grande obra, com todos os elementos da clássica “trajetória do herói” (produtores do Brasil, #ficaadica). Participou durante poucos meses —entre os mais de 1.100 que viveu— de um movimento que se dizia “integrador” e que lhe interessou por pretender ser crítico do imperialismo e valorizar o Brasil e sua cultura. Abdias logo percebeu o embuste e saiu para fazer as outras e mais interessantes coisas que realizou em 99% do seu tempo de vida. Por que Antonio alterou a história, inclusive mensurável e documentada? Precisava desesperadamente preservar seu desenho de mundo para conseguir estar nele?

Será que a gente sempre sabe quando e quanto mente? Pintar um quadro tão falseado da realidade é mentir. E não precisa nenhum Platão expulsar artista da pólis e criticar a mimese para gente entender isso.

Tem o Juiz. Ele faz mágica e joga em todas as posições: acusa, defende, julga. Compra e vende. Compra e vende informação, ganha (muito) dinheiro. Trama trama e esconde-esconde. Uma parte da arquibancada tenta investigar, a outra tenta acreditar. Na boa-fé ou na loucura da autoilusão, o que normalmente dá na mesma e é sempre uma má ideia de fé. Aliás, fé não é uma boa ideia.

O case presidente ainda vai render trabalho final de curso e mil doutorados em mentirologia. Você frauda e vence o jogo dizendo que o outro frauda (rouba). Depois você começa a perder, então frauda (por ex., o TSE) e diz que o outro frauda (por ex., a urna). Espiral satânica.

O último case é o mais curioso: o personagem ficou famoso por denunciar fetos em refrigerantes e debochar de vírus, vacinas e cigarros. Morreu, coitado. E sim, investigar a gigantesca indústria química contemporânea é um trabalho necessário, de preferência chegando do lado certo da história (confesso: tive pena do idiota sabichão que escolheu ser contra a vacina e a favor do cigarro). Mas minha pergunta hoje é outra: como alguém que se diz astrólogo, e portanto estuda um pouco dos astros, pode afirmar que a gente não sabe porra nenhuma então por que caralho a Terra não pode ser plana? No século 3 a.C., Eratóstenes conseguiu calcular, com varetas fincadas em Siena e Alexandria, a circunferência da Terra. Sim, há 2.200 anos, um grego calculou essa medida, com um erro mínimo, a partir da premissa de um planeta redondo habitado por animais racionais.

O que me assusta, na verdade, é que entramos numa era em que fica cada vez mais tênue a borda entre a mentira, a pilantragem e a loucura.

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 50 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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