Deus é diagnosticado com síndrome de burnout

Vou tirar um período de licença e volto depois das eleições’, explicou

“Eu criei o céu e a terra. A luz e as trevas. A mosca na sopa e o dente do tubarão. Sou onipresente, onisciente, onipotente”, disse o Todo-Poderoso. Em seguida, após um suspiro divino, completou: “Mas tem limite. Jogam tudo em cima de Mim agora! Tá demais. Quem vocês acham que Eu sou?”.

O Supremo Arquiteto apresentou um atestado médico mostrando que Ele foi diagnosticado com a síndrome de burnout. “Essas eleições estão passando do limite. É muita demanda, mesmo para Mim. Daqui a pouco, vão querer que Eu declare voto. Vão me chamar de isentão”, lamentou, exausto.

Com os olhos marejados, o Criador confessou que está exausto emocionalmente, com falta de energia e que isso vem reduzindo sua realização profissional: “Cometi alguns erros, sim. Permitir a criação do chá de revelação e a proliferação do mêsversário, por exemplo. Quando vi, já estava lá. Agora não tem mais como impedir. Sem falar na tragédia da harmonização facial. Tenham dó! Não estou nem conseguindo agir a tempo para abaixar o volume das caixas de som que o pessoal leva pra praia”, disse.

Relatórios produzidos no Paraíso mostram que as intervenções divinas caíram 19% desde que a campanha eleitoral começou. “Só nesta manhã, nosso Rei dos Reis já ajudou dona Marluce, que é filha de militar, a trocar de carro; abençoou a viagem da família Tavares para a Disney; atendeu às preces para reduzir a isenção de impostos a pastores; ungiu cinco primeiras-damas; impulsionou 1.200 posts no Twitter; impediu 74 assaltos em Copacabana; abençoou 7.000 comícios; fez chover em todas as plantações de soja do Centro-Oeste; criou 18 refrões sertanejos e ajudou a filha de um pastor a passar na prova de matemática”, diz o texto, em linhas tortas.

“Mas é tanta gente falando em nome Dele, que nem Ele está dando conta”, lamentou o arcanjo Gabriel.

Com uma mochila nas costas, o Redentor anunciou: “Vou tirar um período de licença e volto depois das eleições. Enquanto isso, tentem refletir sobre aquilo que venho sugerindo desde a criação. No fundo, todas as religiões são sobre solidariedade, afeto, perdão, ética, bondade, entendimento. Parem de atribuir a Mim coisas que Eu nunca disse. E, pelo amor a Mim: amem uns aos outros”.

Sobre Solda

Luiz Antonio Solda, Itararé (SP), 1952. Cartunista, poeta, publicitário reformado, fundador da Academia Paranaense de Letraset, nefelibata, taquifágico, soníloquo e taxidermista nas horas de folga. Há mais de 50 anos tenta viver em Curitiba. É autor do pleonasmo "Se não for divertido não tem graça". Contato: luizsolda@uol.com.br
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